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ANIVERSÁRIO DE CARUARU
Arte popular celebra os 144 anos da cidade

Fundada a partir da Fazenda do Caruru, cidade tornou-se o pólo comercial movimentado e próspero do Agreste pernambucano e um dos mais importantes centros de arte figurativa do mundo

por LUIZA BARROS

“Era mais importante que eu aprendesse a usar minhas mãos que minha cabeça. Na minha terra, as mãos produzem comida e a cabeça só produz confusão”. Do alto de sua ingenuidade, não imaginaria Mestre Vitalino que suas mãos trariam muito mais do que comida – renderiam projeção internacional para a arte de sua terra. É impossível falar de Caruaru, que amanhã faz 144 anos, sem citar o nome do artesão. Um é sinônimo do outro. No entanto, assim como a rica e diversa feira, a capital do Agreste não se resume apenas ao artesanato.

Fundada a partir da Fazenda do Caruru, a pequena vila logo se tornou parada obrigatória para aqueles que se dirigiam ao interior pernambucano. Hoje, a cidade, com 253.312 mil habitantes e intenso fluxo comercial, é considerada a capital do Agreste do Estado. As riquezas caruaruenses, no entanto, vão muito além das questões econômicas.

A Feira de Caruaru, além de ser uma fonte importante de geração de renda, é bastante rica em arte e cultura. Sim, o compositor Onildo Almeida, companheiro de muitos anos do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, tinha razão: de tudo que há no mundo, lá tem para vender. Explica-se: a Feira de Caruaru é um grande aglomerado formado por diversas feiras paralelas – a Feira Livre, a de Artesanato, a do Paraguai, a de Miudezas, a de Ferragens, a da Sulanca, a de Passarinhos e a Feira do Troca, entre outras. Trata-se, sem exageros, de um complexo pólo de negócios.

Caminhando por suas intermináveis ruas, o visitante encontra ervas, barracas com artigos de candomblé, ferragens, brinquedos, roupas, sapatos, utensílios domésticos, ferramentas e, naturalmente, todo tipo e variedade de alimentos. Fundamental é parar em uma das barracas para saborear um caldo-de-cana com pão doce. Tempo para respirar antes de chegar à seção mais peculiar do grande centro de compras: a Feira de Artesanato.

São artigos em couro, flanela, barro, cerâmica, corda, madeira, plástico e tecido, além de cordéis e xilogravuras. A impressão de já ter visto alguns objetos em uma loja do shopping não é apenas impressão. Algumas peças de fato chamam atenção pela qualidade e beleza. A Feira de Artesanato é uma espécie de captadora de arte de diversas cidades da região, por isso sua diversidade. Não deixe de visitar a loja do poeta cordelista Severino Cristóvão e do mestre em xilogravuras J. Miguel.

POESIA – Ainda na Feira de Caruaru, outro ponto obrigatório: o único museu do mundo dedicado inteiramente à literatura de cordel. Fundado em agosto de 1999, o Museu do Cordel é uma pequena casa de madeira, contígua à banca de Seu Olegário Fernandes da Silva, 69 anos, fundador e curador do centro cultural. No local, além de comprar livretos e xilogravuras, o turista pode se deliciar com as histórias fantásticas do criador de mais de 200 títulos. “Estou aqui para dar uma assistência para o povo e para a cultura”, diz o poeta, com os olhos brilhando de orgulho por mais uma explicação a um novo visitante. “Tiro do açúcar, do café, da luz e do pão, mas mantenho o museu”, declara.

Outro pontos turísticos importantes a serem visitados também resgatam e registram a cultura popular: o Museu do Forró e o Museu do Barro. Localizados no Pátio de Eventos, onde ocorrem os famosos festejos juninos da Capital do Forró, os espaços dispõem de algumas preciosidades. No primeiro, funciona uma mostra permanente dedicada ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga, o qual dá nome ao museu. Estão à mostra desde peças do guarda-roupa pessoal e documentos pessoais do músico a cartas apaixonadas para sua última mulher, Edelzuita. A biografia do sanfoneiro é contada junto à história do gênero musical que se confundiu com sua vida: o forró. Também há uma sessão dedicada a Elba Ramalho, com figurinos usados pela cantora em shows e algumas fotos.

Em direção ao primeiro andar do mesmo prédio, chegamos no Museu do Barro, onde há mais de mil obras de diversos artistas pernambucanos. No acervo, existe uma belíssima exposição da obra e vida do Mestre Vitalino, o mais famoso artesão da cidade.

Saindo do Museu do Barro Zé Caboclo, o visitante pode aproveitar para conhecer o Pátio de Eventos, uma imensa área livre, na qual anualmente ocorrem os principais festejos juninos. Vale a pena passear pelas ruelas da réplica de uma típica vila das cidade de interior, que faz parte do espaço. Os bares que integram o ambiente convidam para tomar uma cerveja ou, para os mais ‘conservadores’, um lapada de cana.

AO ANOITECER – O fim do dia não ficaria completo sem que o visitante subisse ao Morro Bom Jesus para contemplar uma visão panorâmica da cidade. No local, pode-se desfrutar de um pôr-do-sol encantador.

E, para aqueles que ainda não se derem por satisfeitos, a noite caruaruense reserva algumas boas surpresas. Na cidade, ao contrário de outros municípios do interior, pode-se comer bem (até mesmo com um certo requinte) e usufruir de bares agradáveis. O reduto da boemia local concentra-se no pólo gastronômico, situado na Avenida Oswaldo Cruz. Os menus do Casablanca (especializado em panquecas) e do Giardino (cozinha internacional) são muito bem cuidados. Provam que, em Caruaru, muito também há para se comer.

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Jornal do Commercio
Recife - 17.05.2001
Quinta-feira