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ARTIGO

Dois “ases” do baralho

por FERNANDO ANTONIO GONÇALVES

Creio que Deus é brasileiro quando nos proporcionou um ver-melhor a partir da bronca energética. Uma crise que deixa nuzinho o homão do Planalto e seus baba-ovos, classificação indignada do Carlos Heitor Cony, consagrado intelectual brasileiro. E a explicação é do meu amigo João Silvino da Conceição, um gota serena em fuçações bibliográficas: “As chuvas que não aconteceram, provocando racionamentos e apagões, revelaram dura realidade, a de um Brasil Pavão, plumagens lindas e vistosas e pés feiosos, fantasias primeiro-mundo edificadas sobre bases sociais vexatórias, indecentes, incapazes de conduzir o todo a um mínimo de bem-estar razoavelmente compatível com a nossa soberania nacional”.

O mesmo Silvino, outro dia, comemorou com o Faguinho Silva, seu primo, um presente em dose dupla: a edição de Dialética da Dependência, do Ruy Mauro Marini, pela Vozes e pelo Clacso, e um artigo do Gilberto Felisberto Vasconcellos, publicado na Revista Caros Amigos de fevereiro, intitulado Anatomia de um ostracismo nas ciências sociais, onde está escrito: “Pasmei de babar, comovido e enraivecido, quando li o artigo, até hoje inédito em português, de Ruy Mauro Marini – escrito em 1978 – sobre a dupla FHC e Serra... Agora, finalmente, saiu pela Editora Vozes, embora mal editado, Dialética da Dependência, livro coletânea do Ruy (1932-1997), em que foi incluída a cacetada genial que ele deu na parceria tucana safada que enganou meio mundo na esquerda, sobretudo nos cursos universitários de filosofia e ciências sociais durante a década de 70.” E mais escreveu: “O caráter ambivalente e perverso da personalidade de FHC é exposto por Ruy Mauro Marini, que foi “assimilado” em 1967 por ele e o picareta do Falleto. Ambos chuparam do artigo do Ruy Mauro Marini (publicado na Monthly Review de 1965) os conceitos de 'desenvolvimento autônomo' e 'desenvolvimento associado' – só que FHC, Falleto e Serra descartaram a teoria marxista do imperialismo ...” “Um dia, profetizara Ruy Mauro Marini, FHC e Serra iriam perder completamente a vergonha. Dito e feito.”

A partir da denúncia acima; o povo brasileiro começa a entender por que o presidente FHC pediu para que esquecessem os livros dele. E aplaude com intensidade o pensar do Ortega y Gasset, que até parece explicar as atuais posturas presidenciais: “Meu futuro, pois, faz descobrir meu passado para realizar-se. O passado é agora real porque o revivo e quando encontro em meu passado os meios para realizar o futuro é quando descubro o meu presente.”

O João Silvino tem razão: “Posso até não concordar com certas e determinadas idéias. Mas defendo a ampla divulgação de todas elas, pois somente assim desmascaram-se os embromadores, os fingidos, os que plagiam e os que procrastinam, ludibriando um Povo, o Povo Brasileiro, que merece ser bem mais respeitado, sem apagões nem embromações televisivas”.

E disse mais: “As forças progressistas brasileiras necessitam ser mais atiladas, radicalmente democráticas e sem nostalgias deletérias, imunes aos triunfalismos messiânicos e avessas às “aparecências forrozeiras” que apenas engabelam os politicamente mais ananicados. Devem ser politicamente eficazes, sem choramingas e sem as falsas promessas feitas apenas para ganhar eleições, o povo que se dane depois na busca de terra, trabalho, casa e decência”.

Depois do discurso, o Silvino disse que apagão terá, em 2002, a patota que imaginava ficar muitos anos no poder, fingindo-se de progressista.

Fernando Antônio Gonçalves é professor universitário e pesquisador social


Jornal do Commercio
Recife - 21.07.2001
Sábado