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MÚSICA
Ana Júlia é caso de amor do passado

por JOSÉ TELES

Los Hermanos, até o Abril Pro Rock 99, era conhecido apenas no meio udigrudi carioca. Depois da apresentação no APR, os olheiros das gravadoras fizeram marcação cerrada em cima do grupo, que teve o passe comprado pela Abril Music. Uma história banal, no show business, que se repete a todo momento. O que nem os integrantes do Los Hermanos, muito menos os executivos da gravadora, esperavam era o alcançar sucesso instantâneo, carreado pela canção Ana Júlia. A música levou o CD de estréia a vender 300 mil cópias, ao mesmo tempo que estigmatizou a banda, que passou de queridinhos do underground, para mais uma bandinha pop.

O segundo CD dos Los Hermanos. Bloco do Eu Sozinho, acaba de ser lançado, em meio a controvérsias, que envolveram a produção original. O pessoal da Abril Music não se agradou de não escutar uma outra Ana Júlia no novo disco. Rodrigo Amarante, um dos vocalista e compositor dos Los Hermanos concedeu entrevista ao JC, por telefone, sobre o disco, a polêmica com a gravadora, e sobre o peso da fama.

JORNAL DO COMMERCIO A história do pop brasileiro tem poucos exemplos de grupos que estouraram de um dia pro outro. Secos & Molhados e RPM são os exemplos mais conhecidos, e não foram além do segundo disco. Como o Los Hermanos vem segurando a onda?

RODRIGO AMARANTE No primeiro momento foi um choque, porque a industria trabalha de uma maneira mutilante. Antes no underground, a gente apresentava todas as músicas sem problemas, depois veio Ana Júlia tocando sem parar, virou sucesso no Carnaval, foi regravada em ritmo de samba, forró, teve todo esse aspecto surrealista. Mas isso fez com que quase 300 mil pessoas comprassem nosso disco, com todas nossas músicas, fez a gente trabalhar muito, viajar o Brasil todo. Mas a gente tá muito bem, unidos, batalhamos para fazer um disco livre, como queríamos que ele fosse feito.

JC – Mas vazou pra imprensa que houve problemas com a produção, depois do disco já finalizado. O que realmente aconteceu?

RA – Foi o seguinte. A pré-produção começou com a gente indo pra um sítio que alugamos em Piraí, interior do Rio, numa espécie de método novos baianos. Foi lá que fizemos algumas músicas, os arranjos, depois chamamos Chico Neves para nos ajudar.

Quando a gente apresentou o resultado final para a gravadora, os caras tomaram um susto, no sentido de o trabalho não corresponder as expectativas comerciais deles. Queriam que regravássemos o disco, refazendo os arranjos.

A saída, para não descumprir o contrato, foi uma nova mixagem, com a nossa presença e de um engenheiro que a gente escolheu. Tudo não saiu exatamente como a gente queria porque o Chico não foi até o final.

JC – Ao se escutar o disco, tem-se a impressão de que vocês procuraram propositadamente não fazer outra Ana Júlia.

RA – Não, a gente não tentou negar Ana Julia, nem tentou afirmar. Foi tudo com sinceridade, a gente de forma nenhuma quer voltar pro underground. Queremos é borrar o underground de mainstrean, queremos mostrar que a música do underground não tem que ser intragável.

JC – O Bloco do Eu Sozinho está para o primeiro disco de vocês, assim como OK Computer para Kid A, na medida em que não há canções fáceis, e uma grande diversidade de arranjos e estilos. Vocês andaram escutando o Radiohead?

RA – É legal a análise, a gente vem ouvindo muita coisa. Este disco é conseqüência do outro disco, foi feito em parte em hotéis, e tem tanto de Radiohead quanto de Tom Zé, e até de Frank Sinatra. Procuramos não recorrer a fórmulas, nem tentar seguir tendências.

JC – Fale um pouco sobre as canções do disco, qual a mais antiga?

RA – Tão sozinho, é da nossa época do underground, tá na segunda demo. A segunda, mais antiga, é A flor, que foi feita em Olinda. Na esquina da Rua do Amparo, Ladeira da Misericórdia, numa casa que nos emprestaram, uma casa muito legal. Foi a primeira música que fiz com Marcelo (Camelo, vocalista principal do grupo).

JC – Vocês pelo visto têm uma grande afinidade com o Recife...

RA – É, na nossa história Recife se faz muito presente. Nossa participação no Abril Pro rock foi um divisor de águas na carreira da banda. Eu mesmo sou um carioca, mas passei minha adolescência no ceará. Tenho do nordestino o gosto pela eloquência gosto pela palavra, gosto pela subversão.

RC – E a música em francês, como ela se originou?

RA – Cher Antoine, é o título. Na época em que eu fazia jornalismo na PUC, tinha aulas de francês e o livro didático, era bem diferente. Todas situações eram terríveis, situações francesas. Briga de casal, mulher largando o cara. Tinha uma carta em particular, de uma mulher prum cara, que a havia convidado pra viajar, num feriado, mas ela preferiu viajar com outro. Escrevi a letra em cima da idéia da carta.

JC – Por que a escolha do título Bloco do Eu Sozinho?

RA – Esse nome tem a ver com a gente não se inserir em nenhum grupo, movimento, com panelas, nem com nada.

JC – Vocês acham que agora se livram de ser apontado como o grupo de Ana Júlia, de um sucesso só?

RA – Desde o começo, até mesmo na época do underground, a gente nunca achou legal, frutífero, ter uma postura fálica em relação ao rock, nunca se identificou com quem ser malvado. Pelo contrário, a gente quer ser gentil. Nesse sentido a gente se distancia dessa imagem do rock. Rock deixa de ser subversão quando tudo se torna uma camisa de força. Somos caras legais, tomamos café com leite, respeitamos nossos pais. Aliás todos nós ainda moramos com nossos pais.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.07.2001
Sábado