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PRAGA
Caracol já infesta 21 Estados

Introduzido clandestinamente no Brasil há 10 anos para substituir o escargot, o gigante-africano se tornou uma ameaça à agricultura

O gigante-africano, caracol que se constitui numa ameaça à agricultura e à biodiversidade, já se alastrou por 21 Estados, inclusive Pernambuco. O levantamento foi realizado por pesquisadores que participaram do 17° Encontro Brasileiro de Malacologia (ciência que estuda os moluscos), encerrado ontem na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

A espécie invasora, introduzida clandestinamento no Brasil há 10 anos, pode dizimar plantações, principalmente de hortaliças, alertaram os malacologistas. “Ela também está competindo por espaço com caracóis nativos, o que põe em risco nossa diversidade biológica”, adverte Sônia Barbosa dos Santos, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

A saúde pública é outra preocupação dos pesquisadores. A bióloga Silvana Thiengo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro, revela que o gigante-africano é hospedeiro do verme causador da angiostrongilíase. A doença, que resulta na ruptura do intestino, tem cerca de 100 casos registrados no Brasil.

Nenhum caracol-africano encontrado solto no Brasil teve o verme detectado até agora. “Em laboratório, no entanto, comprovamos que ele pode ser infestado pelo Angiostrongylus costaricensis”, diz Silvana. Segundo ela, um caracol contaminado pode transmitir larvas do verme, por meio do musgo, para vegetais. “Ao se alimentar desses vegetais, o homem pode contrair a doença.”

Para contribuir no combate ao gigante-africano, a Sociedade Brasileira de Malacologia (SBMA) aprovou, ontem, uma moção que determina a elaboração de um documento sobre o problema. O relatório, que deve ser concluído em um mês, será enviado ao Ministério de Agricultura, à Procuradoria da República e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

A presidente da SBMA, Rosa de Lima, acredita que apenas uma mobilização nacional poderá envolver o governo no combate ao gigante-africano, denominado cientificamente de Achatina fulica. “Até agora, os órgãos federais de fiscalização não estão tomando providências”, informa Rosa de Lima, professora aposentada da UFRPE. No Recife, o caracol já soma entre 30 a 40 toneladas no Grande Recife, segundo estimativa do professor José Carlos Nascimento de Barros, da UFRPE.

DIVERSIDADE – Duas espécies do gigante-africano são encontradas no Brasil, e não apenas uma, como se pensava até agora, afirma Norma Salgado. Segundo a malacologista, que há 20 anos pesquisa caracóis, existem 58 espécies de caracóis do gênero Achatina conhecidas no mundo. “Duas delas são as que estão se expandindo no Brasil. Uma é a Achatina fulica e a outra ainda estou identificando”, adianta. No País, o número de espécies de caracóis é de 1.000 a 1.100. A fauna nativa, no entanto, está ameaçada pelo Achatina. Com uma taxa reprodutiva superior, o gigante-africano acaba tomando o espaço e alimento das espécies nativas.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.07.2001
Sábado