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MÚSICA ERUDITA
Verdi dá mais terror a Shakespeare

por PAULO SÉRGIO SCARPA

Macbeth, a oitava ópera de Giuseppe Verdi (1813-1901), nunca foi páreo para "pequenas" vozes. O próprio compositor chegou a sugerir que Lady Macbeth não fosse cantada, mas sussurrada pela soprano, que deveria se preocupar mais com a dramaticidade do papel do que com a voz. Por isso, a ópera mais macabra e difícil do compositor italiano precisa também de um ótimo maestro que saiba tirar da orquestra até os necessários e incômodos silêncios criados por Verdi.

Essas "virtudes" estão bem visíveis na encenação de Macbeth (1847) que o canal Film&Arts (171) da Directv apresenta hoje, a partir das 21h, com legenda em português. Além de Mara Zampieri e Renato Bruson nos principais papéis tem a competente e sensível regência do maestro italiano Giuseppe Sinopoli à frente da Orquestra da Ópera de Berlim (Alemanha). Ele morreu em abril deste ano aos 54 anos vítima de ataque cardíaco enquanto regia Aída, de Verdi, na Ópera de Berlim.

Macbeth foi sempre uma das obras favoritas de Verdi, apesar de ter recebido críticas, infundadas, de que não conhecia Shakespeare (leu a obra do bardo desde a juventude) e de não ter obtido sucesso imediato. Verdi passou muito tempo revendo a obra diante da dificuldade de adaptar o extenso e complexo original em inglês. Por isso, o compositor concentrou-se em apenas três personagens: Macbeth, general (barítono), Lady Macbeth (soprano) e as feiticeiras. Mas ele deixou bem claro que a sua principal personagem era Lady Macbeth: explicitamente a figura dominante na ópera embora apenas implicitamente em Shakespeare.

O ponto central da ópera está no final do primeiro ato, após o assassinato do rei Duncan, da Escócia, quando Verdi compôs um dos mais belos e difíceis duetos. A partitura indica, muito apropriadamente, que o dueto deve ser cantado "sotto voce e cupa", isto é, a meia-voz, sombria e sufocada. E somente algumas frases, indicadas "a voce aperta", devem ser cantadas a plena voz, entre elas a do acesso de terror de que é acometido Macbeth quando vê suas mãos manchadas de sangue. "Oh, vista orribile", grita o ganancioso general. A história conta que, antes da estréia da ópera, Verdi obrigou que o dueto fosse ensaiado 151 vezes até se dar por satisfeito.

Mas nada se compara à cena do sonambulismo de Lady Macbeth no 4º ato, estruturada na forma tradicional de uma cena de loucura para soprano. Mas como uma liberdade de movimento e expressividade que Verdi, provavelmente, só superaria na Aída, criada 25 anos depois. Em resumo, o que falta ao personagem de Macbeth sobra para Lady Macbeth, que domina musical e dramaticamente toda a obra. Imperdível.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.07.2001
Sábado