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A hora do campo

O Brasil embala um sonho: alcançar a produção de 100 milhões de toneladas de produtos agrícolas. Mais que um sonho, é uma meta anunciada pelo ministro da Agricultura, que coloca na ordem do dia a necessidade de o nosso País definir não apenas uma, mas várias políticas agrícolas que nos permitam enfrentar uma competição desleal de subsídios em países do primeiro mundo e, simultaneamente, elevar a produtividade e competitividade.

Essa é uma tarefa irrenunciável, se pretendemos avançar nos próximos anos, não apenas com vistas ao crescimento da economia mas, sobretudo, na definição de áreas de hegemonia. Se não há sinais de que podemos competir, de imediato, em tecnologia de ponta, é fundamental identificar os nichos em que podemos ser superiores e investir neles. Até mesmo para desenvolver setores que nos permitam competir também onde temos sido apenas mercado consumidor ou, no máximo, de mão-de-obra.

Essa característica da mundialização do capitalismo, para a qual apenas começam a se ensaiar uma terceira via, nos impõe os limites e as regras e todos nos têm sido desfavoráveis, jogando para futuro incerto a solução de problemas que exigem resposta imediata, notadamente o resgate da imensa dívida social que deixa ainda um terço da população à margem do atendimento às necessidades básicas.

Nesse sentido, talvez já não mais no atual Governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas seguramente no próximo se fará necessária a definição de uma postura mais arrojada em matéria de política exterior. Veja-se, por exemplo, a generosidade com que o Brasil abriu sua economia, enquanto mercados potencialmente mais favoráveis a nossa produção primária são fechados por trás de uma barreira de subsídios que chega a 380 bilhões de dólares.

Evidente que não há como competir nesse cenário. Pelo que soa muito bem o anúncio do ministro Pratini de Morais de financiamentos para a avicultura, suinocultura, um programa de sementes, de preparo e embalagens, para frutas e casas de mel, frigoríficos e armazenagem na propriedade rural. Além disso, o ministro acena com um novo programa para o campo, a floricultura, com generoso financiamento, abrindo uma boa perspectiva.

Essa sinalização deveria estimular todos os homens públicos a renunciarem a questões tópicas eleitorais e se debruçarem definitivamente sobre a questão nacional. Esse exercício para o qual eles são remunerados pela sociedade despertaria a Nação para uma ação transformadora profunda, que poderia implicar em sacrifícios coletivos melhor tolerados do que, por exemplo, os impostos pela atual crise energética, que brotou do nada, de forma brutal, porque os brasileiros não sabiam que estava se gerando um terrível mal para todos, por conta de omissões que deveriam ser cobradas, até mesmo, judicialmente.

Enquanto não chegamos a esse requinte no exercício da democracia, que se dê, pelo menos, crédito ao que é do alcance comum: a enorme potencialidade para aumentar a produção de alimentos, para suprir a mesa dos brasileiros e chegar ao mercado nacional. Seja através do produto industrializado, seja no cereal abundante e de qualidade, na carne sadia e disputada pelas mesas fartas do primeiro mundo ou, até, na ascendente floricultura. Aí está o contido o segmento mais primitivo, mais elementar da economia, talvez por isso olhado como descrença pelos que apostam única e exclusivamente nos avanços extraordinários da informática. Mas também os que estão na ponta em matéria de tecnologia se curvam à prosaica necessidade da carne, do leite, das frutas e dos cereais. E nessa matéria não temos que esperar lições de ninguém.



Jornal do Commercio
Recife - 21.07.2001
Sábado