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LIVROS
Atrás do antigo mundo vermelho

No livro Em Busca da Utopia Kitsch, Marcelo Abreu oferece um bom manual de iniciação para quem quer conhecer o que restou do comunismo no mundo

por BRUNO ALBERTIM

Por que os russos não sorriem? É a História: depois de Stálin, Hitler invade a antiga União Soviética e, durante a Segunda Guerra, extermina 20 milhões de soviéticos. Sob o comunismo, a rotina de delações até entre os membros de uma mesma família também não contribui para o exercício do sorriso. Viver a 20 graus abaixo de zero é outra razão para ninguém abrir os lábios. As explicações para a falta de humor, traço marcante do povo russo, estão compiladas em um dos capítulos do novo livro do pernambucano Marcelo Abreu, um jornalista que fez de suas aventuras pelo mundo a fonte de sua escrita. Em Busca da Utopia Kitsch-Aventuras Nos Países Vermelhos, da Editora Record, oferece um retrato do que restou da presença comunista em 13 países que, ao longo do século 20, estiveram do lado de lá do muro. O mosaico, forte na geografia humana, pode servir como um bom guia de viagem para quem pretende ver como se tornaram esses lugares depois da Guerra Fria.

“São todos muito mal-humorados. Entre eles e também conosco. No comércio de Moscou, você tem que implorar para ser atendido. É uma repartição pública brasileira multiplicada por dez”, compara Abreu, que tem duas fortes exceções ao humor típico dos antigos países vermelhos: Cuba, o ‘rato que ruge’, último país autenticamente comunista no mundo, e o Laos, país do sudeste asiático. “Cuba é simpática pelos motivos que nós já conhecemos: a latinidade, a sensualidade. O socialismo não conseguiu destruir isso. No Laos, a forte tradição budista privilegia a cordialidade, um lugar onde a política não conseguiu comprometer o humor.”

Realizando ‘frilas’ para a BBC londrina, Abreu teve oportunidade de conhecer alguns dos países e resolveu estender a viagem por outros, o que resultou em quase um ano de idas e vindas. Isso depois de ter escrito o bem-sucedido De Londres a Kathmandu, sobre a rota alternativa feita nos anos 70 pelos hippies da Europa ao Oriente.

“Sempre fui criado no capitalismo, não tinha informação sobre o mundo comunista. Não sabia como eles iam ao cinema, como pegavam ônibus”, diz Abreu, sobre os motivos da investida.

ÍNTIMO - É a possibilidade de realizar uma viagem histórico-antropológica, para dizer o mínimo, que faz o mau-humor valer a pena. “Com o tempo, te convidam para uma festa”, ameniza ele. A melhor maneira de conhecer uma cidade, tornar-se razoavelmente íntimo dela, é, para o autor, converter-se de turista em viajante. “Tem que se misturar à rotina, andar a pé, pegar ônibus, metrô e esquecer a conveniência de pacotes turísticos”, ensina.

Nem tudo, porém, são espinhos. Dos sisudos anos comunistas, os países da antiga Cortina de Ferro herdaram um gosto disciplinado pela cultura clássica. Apesar das queixas de falta de recursos, o Bolshoi, por exemplo, continua uma das maiores referências do mundo em dança. Nos países do Leste Europeu, dança e música, apesar da crise, são fartos no cardápio.

CÓPIAS TARDIAS - Como se quisessem expurgar o passado com avidez e entrar com atraso no século 20 que o Ocidente viveu, a juventude russa e de outras metrópoles dá a impressão de viver sob deja-vú. “Parecem todos cópias mal-feitas de edições antigas de revistas londrinas, como a The Face. Escutam tudo o que nós consumíamos nos anos 80”, conta. Como ocorre com a China, onde os jovens fazem tudo por um bom exemplar das grifes européias, os russos se esmeram em se atualizar na moda no Ocidente. A cópia, no entanto, parece ter sido feita em papel carbono do passado.

O comunismo também padronizou a arquitetura desses países, algo que marca a memória do viajante. “Em quase todos, há prédios muito feios, quadrados, típicos da arquitetura stalinista”, diz Abreu, sobre as construções cuja altura tinham o objetivo de simbolizar a grandiosidade do Estado comunista. “Uma boa exceção dessa arquitetura é a Letônia. Riga, sua capital, é aconchegante e medieval. O compositor Wagner, aliás, morou lá”, diz.

Quem quiser testemunhar o bonde comunista que encerrou sua viagem pela História tem que se apressar. Além da crise que impede a manutenção dos prédios gigantescos, o capitalismo já tratou de quebrar as antigas identidades arquitetônicas das construções. “Em pouco tempo, tudo vai estar coberto por out-doors, de forma quase irreconhecível”, percebe Abreu. O que não será muito diferente do cardápio visual irregular, poluído e recheado de publicidade das metrópoles brasileiras.

Serviço:

Título: Em Busca da Utopia Kitsch - Autor: Marcelo Abreu - Preço médio: R$ 30

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Jornal do Commercio
Recife - 19.07.2001
Quinta-feira