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Carta de Genebra
por FRANCISCO BANDEIRA DE MELLO
Genebra, 29/11/63. Meu caro Luizinho (Costa Lima): Escrevo-lhe profundamente chocado, como todo mundo, pela incrível, brutal e misteriosa morte de Kennedy. Já porque a morte de qualquer pessoa nos choca, já porque ele era jovem (em todos os sentidos), já porque era simpático, inteligente e, principalmente, porque jogava um papel incalculável na democratização dos EUA e, em conseqüência, acumpliciado com Nikita, na democratização do mundo. Esperamos que, ao menos, sua morte sirva para tornar mais fortes as idéias corajosas (tendo em vista o contexto norte-americano) que ele defendia. Se os EUA retroagirem, teremos uma URSS também em vias de se enrijecer e perderemos muitos anos no progresso das idéias políticas. Mas deixemos de divagações. Escrevo-lhe espremido numa pequena disponibilidade de tempo e com mil cartas a responder.
1 - O próximo número da revista (no qual eu ainda possa colaborar) será sobre o quê? Até que data improrrogável uma possível colaboração minha deveria chegar aí? Tendo essas respostas, eu faria uma resenha dos suplementos ou revistas de língua francesa e mandaria um artigo, se me fosse possível enquadrar dentro do assunto a que a revista fosse dedicada. Se você estiver sem tempo para me responder logo, telefone lá para casa e dê o recado a Solange. 2 - Chegaram as revistas para mim e Josué de Castro. Agradeço. 3 - Fernando Menezes deve ter entregue a você uma resenha sob o título de O Direito de Comer. Se por qualquer razão não pode ser publicada, ótimo. Se pode, veja se está em tempo de substituir o texto antigo pelo novo, contendo algumas correções. (Na verdade só são duas: por lapso escrevi, na 3ª linha, cruzeiros em lugar de dólares, o que modifica todo o sentido do troço; e na 14ª linha, onde eu dizia quase acacianamente, preferi dizer com certa simplicidade – acacianismo é um pouco outra coisa, é lugar comum dito com solenidade). 4 - Li o seu ótimo artigo sobre Trotsky e tenho uma notícia que lhe porá água na boca: comprei um exemplar (2/1963) da Revue de L'Institut de Sociologie da Universidade Livre de Bruxelas, dedicado a “problemas de uma sociologia do romance”. Com: Goldmann, Lukacs, Natalie Sarraute, Robert Grillet etc. Passei numa livraria, pedi a revista (que estava exposta na vitrine) e a balconista me olhou incrédula e avisou: – Ah! é muito cara. Calculei o franco à base de mais ou menos CR$ 250 (a revista é do mesmo tope tipográfico da Estudos Universitários) e fui embora. Mas depois deu-me um acesso (raro) de valentia e voltei e comprei-a, embora a sociologia do romance não seja o meu metier. Vou começar a lê-la e deverei mandar uma nota para Estudos Universitários ou suplementos. De qualquer forma, estou lhe dando a indicação.
5 - Tenho estado constantemente com Pierre Furter, que me pede para confirmar: viaja para aí no dia 27 de dezembro. Devo passar o Natal em casa da família dele em Neuchatel, amenizando (espero) a crise de saudade que sentirei nesse dia (lembro o poema de Fernando Pessoa sobre o Natal: “coração oposto ao mundo/como a família é verdade” etc). Ele continua de uma gentileza realmente pernambucana. 6 - Tenho ido a cinema delirantemente e, modéstia à parte, vi o genial Cidadão Kane. Vi ainda Vivre sa Vie, uma notável experiência de Godard, tão insólita que eu e uma velhinha que estava sentada perto de mim tivemos de brigar contra o resto da platéia, que gritava: “Assim não é possível, exibirem um filme desses!” (E é porque o suíço é um povo culto, dizem). Vi ainda Cleo de 5 a 7 e Moi, un Noir, exibidos na III Semana de Estudos Cinematográficos de Leysin – um belo despenhadeiro a 1.500m de altura, lugar de repouso e esportes de inverno. (...) Tenho ido também a concertos (Trio Stern, Quinteto de Varsóvia, Orquestra do Scala de Milão, Suisse Romande etc); visto milhões de galerias de arte (uma beleza a Lettera Amorosa de Braque e René Char) e, finalmente, a algumas peças de teatro (Corneille, Camus, Pirandello). 7 - Diga por favor ao padre Almery que, enfim, entrei em contato com o père Kaelin. Estive já três vezes com ele e, no Centro Universitário Católico, ouço conferências e entro em contato com a juventude. O père Kaelin inclusive me encarregou de arranjar uma conferência de Josué de Castro (...)
Francisco Bandeira de Mello, jornalista, é da Academia Pernambucana de Letras
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