Sargento João Santa Cruz Sacramento teria participado da operação destinada a desaparecer com os corpos de guerrilheiros mortos pelo Exército. Com base em seu depoimento ontem foram localizadas duas ossadas
BELÉM – A expedição da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados em Xambioá (TO) ganhou ontem o reforço de mais um oficial do Exército na busca de corpos dos mortos durante da guerrilha do Araguaia. A guerrilha foi o confronto entre Forças Armadas e militantes do PCdoB, entre 1972 e 1974, na região do Bico do Papagaio (PA e TO). O sargento João Santa Cruz Sacramento participou do grupo que combateu a guerrilha do início até o fim do conflito.
Antes de Santa Cruz, o grupo de trabalho da comissão já contava com a participação do coronel Pedro Corrêa Cabral, que na época da guerrilha pilotava helicópteros. Ele afirma ter feito diversos vôos carregando corpos de guerrilheiros até um local chamado serra das Andorinhas, em Xambioá (502 km de Tocantins).
Segundo a comissão, o sargento Santa Cruz também teria participado da chamada operação limpeza, destinada a desaparecer com os corpos de guerrilheiros mortos. “O sargento Santa Cruz deu um depoimento à comissão em que disse saber o local onde estariam duas sepulturas de guerrilheiros”, disse o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP).
CORPOS – Ontem, o perito criminal José Eduardo Reis, diretor de antropologia do Institituto Médico Legal (IML) de Brasília, localizou no cemitério de Xambioá, duas ossadas que podem ser de guerrilheiros mortos pelo Exército durante a guerrilha do Araguaia, ocorrida entre 1972 e 1974.
A análise preliminar de um dos corpos indica que trata-se de alguém do sexo masculino que foi enterrado com as mãos para trás. Pode ser o corpo do guerrilheiro Paulo Roberto Marques, codinome Amauri. Os familiares dele têm informações de moradores que o teriam visto ser enterrado no cemitério de Xambioá.
A localização dos corpos se deu após uma moradora da cidade ter indicado a área exata onde teria visto duas pessoas serem enterradas envoltas em lonas de pára-quedas na época da guerrilha. No mesmo cemitério, em 1991, foi encontrado o corpo da guerrilheira Maria Lúcia Petit. Na mesma época, uma outra ossada também foi localizada. Em julho de 1996, outras três ossadas foram achadas.
Na última sexta-feira, um grupo formado por quatro geólogos da Universidade de Brasília e três médicos-legistas do IML de Brasília realizou escavações no cemitério de Xambioá.
Eles encontraram os ossos, que seriam de uma criança, depositados em uma vala comum, que não apresentava identificação. Os peritos descartaram a possibilidade de os ossos serem de guerrilheiros.
Os peritos não tocaram nos ossos e decidiram interromper as escavações no cemitério, mesmo local onde foram encontrados os restos mortais da guerrilheira Maria Lúcia Petit, em abril de 91. Eles fazem novas escavações hoje.