por JOSÉ TELES
Assim como Luiz Gonzaga que, com o tripé sanfona, zabumba e triângulo, estabeleceu o formato que seria adotado por praticamente todos os forrozeiros depois dele, Jackson do Pandeiro fez com que o coco fosse mais do que uma expressão folclórica para se transformar em um dos principais gêneros musicais do País, adicionando-lhe instrumentos e adotando uma temática urbana. A intensa e conturbada trajetória desse paraibano de Alagoa Grande, nascido em 1919, somente agora, quase 20 anos depois de sua morte, chega ao livro com o lançamento de Jackson do Pandeiro – O Rei do Ritmo (Editora 34, 412 páginas), escrito pelos jornalistas Fernando Moura e Antônio Vicente.
Durante oito anos, os dois rastrearam os passos dele. Da paupérrima infância na cidade natal ao estrelato nacional. A narrativa, no entanto, poderia ser mais enxuta. Na passagem do artista por João Pessoa, por exemplo, os autores excedem-se em citar lugares e nomes que acrescentam páginas ao livro, mas pouco à biografia. Em compensação são preciosos os detalhes sobre o início do sucesso na Rádio Jornal do Commercio (atual Rádio Jornal) no Recife, o auge no Rio de Janeiro, e o ostracismo que o rondou até seu falecimento em 1982, em Brasília, em conseqüência de uma diabetes. Preciosa também a discografia colhida pela dupla.
José Gomes Filho seguiu os passos da mãe, a viúva Flora Mourão, uma mulher forte que batalhou para sustentar a família sozinha (não se sabe com exatidão de que morreu o pai, o oleiro José Gomes). Mulher de temperamento forte, Flora Mourão complementava o sustento dos filhos cantando cocos em festas, tanto em Alagoa Grande quanto em Campina Grande, então a mais importante cidade do interior nordestino. Adolescente, ele se dividia entre um trabalho como ajudante de padeiro e bicos como pandeirista no movimentado baixo meretrício campinense (onde, segundo os autores, funcionava o “mais luxuoso cabaré do Brasil”, o Cassino Eldorado).
FLAGRAS – Teriam sido os excessos, as noitadas gastas em cabarés, e a inevitável contração de doenças venéreas que o tornaram estéril (o mesmo teria acontecido com Luiz Gonzaga). Mulherengo incorrigível, Jackson do Pandeiro entraria em várias frias por conta disso. Já casado com Almira Castilho, morando no Rio de Janeiro, ele foi surpreendido por uma acusação de bigamia, vinda de sua primeira mulher, com quem casou quando ainda vivia em Campina Grande. A celebrada dupla com Almira seria desfeita. Ela o flagrou com uma moça que vivia com o casal e desfez a parceria.
O início da formação de Jackson é bem traçado a partir de entrevistas com amigos, contemporâneos e irmãos do cantor. Foi em João Pessoa que ele começou a fase profissional, então ainda chamado de Zé Jack (o Jack tomado emprestado a um ator menor, da fase muda do cinema norte-americano, Jack Perrin). Ele foi para a capital da Paraíba, depois de uma desavença, num cabaré, com soldados do Exército (então em plena Segunda Grande Guerra).
Em João Pessoa, o coquista tocaria na Orquestra Tabajara (ou o que restara dela depois da ida do maestro Severino Araújo para o Rio), formaria a dupla humorística Café com Leite, com o pernambucano (de Macaparana) Rosil Cavalcanti, que mais tarde faria para o amigo clássicos como Sebastiana, Forró de Zé Lagoa, Na base da chinela, Coco social, entre vários outros.