Da infância pobre na Paraíba ao sucesso no Rio de Janeiro, Jackson do Pandeiro provou tudo
Exímio pandeirista (chegou a possuir mais de trezentos pandeiros), Jackson do Pandeiro não demorou muito em João Pessoa no início de sua carreira, como lembram Fernando Moura e Antônio Vicente, na biografia O Rei do Ritmo. Seguiu o rumo da maioria dos grandes artistas nordestinos da época: veio para o Recife, a fim de integrar o elenco da poderosa Rádio Jornal do Commercio.
Os autores rebuscaram jornais e revistas da época e mostram todo o fausto da emissora de F. Pessoa de Queiroz, que, nos anos 60, competia em pé de igualdade com as congêneres do Sudeste (era a ‘Rádio Nacional’, do Nordeste). Pandeirista da Orquestra Guarapary, rebatizado de Zé Jack para Jackson, ainda na Paraíba, foi Ernani Séve, na Jornal do Commercio, que definiu o nome Jackson do Pandeiro.
A ascensão do paraibano foi rápida, e o Recife decisivo na sua carreira. Todas as músicas dos primeiros 78rpm dele foram gravadas na capital pernambucana. Quando Sebastiana e Forró em Limoeiro (Edgar Ferreira) estouraram nacionalmente, Jackson do Pandeiro ainda era funcionário da emissora. A dupla com Almira começou na Jornal do Commercio e ganhou o Brasil em pouco tempo. Um incidente numa festa na mansão de Eládio Barros de Carvalho, em que o cantor e Almira tiveram que fugir saltando o muro para não serem massacrados, apressou a ida definitiva dos dois para o Rio de Janeiro (com uma pesada multa pela rescisão do contrato).
DECLÍNIO – Jackson do Pandeiro desfrutou dez anos consecutivos de sucesso. O declínio começou com a bossa nova e foi confirmado pela Jovem Guarda (à primeira fez alguns acenos, sobretudo na fase dos afro-sambas de Baden e Vinicius. À segunda, apenas músicas em que criticava os cabeludos). A partir de 1968, quando foi desfeita a dupla com Almira, a carreira de Jackson do Pandeiro entrou em parafuso.
O artista que se negava a cantar ritmos estrangeiros, acabou unindo-se ao ‘inimigo’ a partir de sua redescoberta pelos tropicalistas, e pós-tropicalistas. Gal e Gil gravaram, respectivamente, Sebastiana e Chiclete com banana, e Alceu Valença levou O ‘Velho’, como ele era carinhosamente tratado, para cantar em festivais, e dividir o palco no Projeto Pixinguinha, formando uma das mais bem sucedidas duplas do projeto.
RETA FINAL – Na última década de vida, Jackson do Pandeiro viu-se reconhecido como um dos mais influentes cantores da história da MPB, ao mesmo tempo em que não conseguia refrear a decadência artística e econômica. Sem compositores do nível de Rosil Cavalcanti (falecido em 1968) ou Edgar Ferreira (também pernambucano, autor de 1X1, Forró em Limoeiro, 17 na corrente, que morreu pobre nos anos 90), Jackson do Pandeiro, para garantir o pão dele e da família (acrescida da derradeira esposa, a paulista Neusa Flores), apelou até para seitas esotérica, e voltou a tocar como músico de estúdio para muita gente: sua destreza rítmica está em discos de Raul Seixas, Clara Nunes e até Wanderléia.
No São João de 1982, ele se sentiu mal numa apresentação em Santa Cruz do Capibaribe. Em Caruaru, o médico (e grande compositor, o que é omitido no livro), Janduhy Filizola detectou um pequeno enfarte, e aconselhou repouso. O cantor voltou a passar mal durante um show em Brasília, e morreria em 10 de julho de 1982 na Capital Federal. Seu derradeiro sucesso foi o Toque da sanfona (“Ouvi o toque da sanfona me chamar...), na voz de Elba Ramalho. (J.T.)