por DIANA MOURA BARBOSA
O brasileiro naturalizado norte-americano Vik Muniz, é, hoje, um dos artistas mais prestigiados no cenário internacional. Suas fotografias custam entre US$ 6 mil e US$ 15 mil, mas em leilões elas já atingiram o respeitável preço de US$ 45 mil. Despojado, o artista confessa que não pagaria tanto por uma obra sua, mas está satisfeito com a notoriedade. Ao invés de ficar contando as moedas, prefere gastar com coisas que lhe dão prazer e reverter a fama em projetos de ajuda a crianças carentes. Morando em Nova Iorque há 18 anos, Vik diz que nunca esqueceu os problemas sociais do Brasil. “Sou uma pessoa brasileira.” Claro que sua brasilidade é temperada por um sotaque newyorker. O artista não escapou ao sentimento de desorientação que abateu os nova-iorquinos depois dos atentados de 11 de setembro. “Nova Iorque é minha cidade favorita, entre todas. Estou muito triste e até sem inspiração. Mas não posso parar.” Não mesmo. A agenda de Vik é agitadíssima. Na semana passada, seus compromissos incluíram uma visita ao Recife, para inaugurar duas exposições suas na cidade. Antes de embarcar para o Brasil, em meio a uma reunião, ele concedeu essa entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, por telefone. Confira os melhores trechos.
JORNAL DO COMMERCIO – Você trabalha com imagens várias vezes reprocessadas, até chegar à versão final de suas fotografias, mas as cenas apresentadas sempre se mantêm fiéis às originais. Por que esse apego à imagem? Você não trabalha no sentido de descaracterizá-la?
VIK MUNIZ – O apego existe como uma coisa iminente, porque uso imagens clássicas, muito conhecidas. Mas eu não diferencio um tema do outro. Para mim, todos são bons, depende da maneira como você trabalha. Acredito que, em qualquer obra de arte, o artista só faz a metade. A outra metade, quem faz é a pessoa que vê a obra. Daí o fato de eu usar imagens da história da arte, porque elas são facilmente reconhecidas pelo público.
JC – Esse reconhecimento já não acontece no caso da série das crianças de açúcar ou do Carnaval, não é?
VM – Mas quem nunca viu uma criança abandonada é cego. São cenas recorrentes também. No caso dos meninos do Carnaval (feitos com o lixo da folia: confetes, serpentinas, tampas de garrafa), eles estão ‘camuflados’. Pelas cores usadas, desaparecem na paisagem urbana das cidades. Essa situação é muito conveniente para eles, que se protegem dos ‘predadores’ e para as pessoas que não querem vê-los.
JC – Essa preocupação com os problemas sociais é uma coisa que continua presente no seu dia-a-dia, mesmo você estando em Nova Iorque, tão longe do Brasil?
VM – Sou uma pessoa brasileira. Não consigo tirar isso de mim. As preocupações sociais estão ligadas à maneira como eu penso, também pelo fato de eu ter nascido no Brasil.
JC – Ao mesmo tempo em que você cria essa relação entre o material utilizado e o questionamento social, a visualidade nunca perde importância no trabalho, não é?
VM – Não, porque faço uma imagem que pode ser vista em vários níveis. Começa no nível físico, óptico, e tenta seduzir qualquer pessoa, até uma criança. Depois, coloco elementos mais sofisticados, para uma leitura que pode ser feita pelas pessoas que têm mais informação sobre a linguagem das artes plásticas contemporâneas. Não gosto que meu trabalho fique restrito ao um só público, quero ampliar ao máximo o alcance de minhas obras.
JC – Essa não é uma postura comum na arte contemporânea, muitas pessoas preferem criar obras mais herméticas...
VM – É mais uma questão de pose. Isso, às vezes, nem parte dos artistas, mas de um grupo que os rodeia, que fala em nome de quem cria a obra, quase como um procurador jurídico (risos). Mas eu prefiro não circular apenas em torno desse nichos que fala a mesma língua, que conhece alguns nomes da arte contemporânea e cita alguns filósofos. É contraproducente. Até porque, acredito que a maioria dessas pessoas acaba com argumentos superficiais, de uma maneira ou de outra. Gosto que todo mundo veja minhas exposições porque as melhores declarações às vezes vêm de quem não tem nenhum conhecimento específico sobre o assunto. As opiniões educadas são muito previsíveis.
JC – Você se considera um artista plástico que trabalha com fotografia ou um fotógrafo que faz artes plásticas?
VM – Sou um indivíduo que, intencionalmente, tenta quebrar essas definições. Esse também é um dos objetivos do meu trabalho. Quero estar num mundo onde esses limites seja cada vez menos definidos. Acho que o artista não deve se preocupar com isso, se é mais ou menos fotógrafo ou artista plástico.
JC – Como você reside em Nova Iorque há tanto tempo, é impossível não falar sobre a situação atual da cidade. Como está o clima aí depois dos atentados de 11 de setembro?
VM – Tudo tem sido muito exacerbado pela mídia. Acho que não vai mudar só a minha vida, mas a de todo o mundo, de todos os países. No Brasil também. O que aconteceu aqui já era esperado, era tido como uma coisa possível de acontecer há muito tempo. É reflexo de décadas de uma política internacional baseada em paranóia, na guerra fria. Acho que nós vamos perder alguns direitos pessoais, e isso afeta a todos. Mas defendo a postura do governo. Não votei em Bush, não sou republicano, mas acho que eles estão fazendo o que tem que ser feito.
JC – Em que o conflito muda sua vida?
VM – Pessoalmente, o que tem acontecido aqui tem mexido muito comigo. Estou até meio sem inspiração para trabalhar. Eu amo Nova Iorque. É minha cidade favorita entre todas. Para mim, os Estados Unidos começam no mar e terminam no Brooklin (bairro de Nova Iorque). Li umas piadas de Millôr Fernandes sobre os atentados e fiquei muito triste. Era uma visão muito ultrapassada, de um antiamericanismo dos anos 70.
JC – Você ainda mantém muitas ligações com o Brasil?
VM – Claro. Meu filho mora aí, meus pais também. Depois que consegui meu passaporte americano, tenho ido de quatro a cinco vezes por ano ao Brasil. Comprei uma casa aí, na serra, em Minas Gerais, entre Rio e São Paulo. Tenho vontade de ficar assim, entre a Europa, os EUA e o Brasil – o Velho Mundo, o Novo Mundo e o ‘Mundo Bom’.
JC – Foi desses laços com o Brasil e das preocupações sociais que surgiu seu trabalho com o Projeto Axé?
VM – Acho que o pior problema social é aquele que afeta vítimas que não podem e defender nem fisicamente. Essas vítimas são as crianças. Adoro crianças, gosto muito de trabalhar com elas. Já participei de iniciativas no Caribe, em São Paulo e com o Projeto Axé. Eu estava com uma viagem marcada para o Norte da Índia, onde desenvolveremos um projeto com meninos que trabalham como escravos na produção de tapetes. Toda a renda será revertida para eles. Por causa do conflito, a proposta está adiada. Mas pretendo desenvolver ações semelhantes no Brasil mais freqüentemente. Na verdade, quero fazer algo até maior. Acho que como artista, e como pessoa também... acho que todo mundo tem que fazer algo para dar o exemplo.