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MÚSICA
O moderno e eterno Bob Dylan

Love and Theft, o 43º disco do sexagenário Bob Dylan, mostra tanto vigor quanto qualquer outro (tão bom) produzido pela nova geração

por JOSÉ TELES

Love and Theft (Sony Music), 43º álbum de Bob Dylan, em face da recente tragédia norte-americana, tem muito de premonitório nas longas letras das 12 canções do disco. Lançado às vésperas dos ataques ao WTC e ao Pentágono, os norte-americanos não devem se sentir muito confortáveis com versos feito estes: “Tweedle dum tweedle dee, estão atirando facas nas ruas/ Duas grandes sacolas com os ossos do homem morto”. Em tempo: Tweedle dum e Tweedle dee são gêmeos em uma canção infantil (as torres eram chamadas de “gêmeas”, certo?). Na faixa seguinte, Mississipi, ele canta: “Seus dias estão contados/ E os meus também/ Preciso de algo que me distraia/ Vou olhar para seus olhos até cegar”. E pior, os versos de Bye and bye, uma das mais belas melodias do álbum, assemelham-se a uma ameaça fundamentalista: “Vou batizá-lo com fogo/ Para que não peques nunca mais/ Vou estabelecer meu governo por meio de uma guerra civil/ Fazer vê-lo quanto fiel e verdadeiro se pode ser”. Para quem é autor de canções como Talkin’ World War III blues ( O blues da Terceira Guerra Mundial), A Hard rain a-gonna fall (Vai cair uma chuva pesada), ou Masters of war (Os senhores da guerra) não causa surpresa o dom que Bob Dylan possui de saber para onde, e sobre quem, o vento irá soprar.

Se o disco anterior Time out of Mind (Grammy de Melhor Álbum de Rock de 1997) foi considerado como a volta do gênio depois de dez anos de discos medianos, com Love and Theft Bob Dylan consegue o feito de realizar um álbum à altura do caudal de obras-primas que compôs no início de carreira. Aos 60 anos, Dylan impressiona pelo total domínio das linguagens musicais do seu país. Não há praticamente um gênero que não esteja de alguma forma em Love and Theft: canção do início do século 20, rock and roll, rockabilly (rock caipira), blues, baladas, e boogie-woogie etc.

Twedle dum Twedle dee é um rockabilly com uma levada de Mistery train, um dos seminais primeiros hits de Elvis Presley. Mississipi retoma a linha harmônica de Like a rolling stone (Feito uma pedra rolante, de 65), um tipo de rock tipicamente dylaniano, que só funciona com ele e com uma banda à altura do seu talento. Desde os álbuns gravados com The Band, Bob Dylan não havia se entrosado tão bem com um grupo como acontece com os músicos convidados para este trabalho (a maioria é de veteranos de Nashville, lendários na cena, a exemplo do guitarrista Charles Sexton).

Algumas das faixas de Love and Theft revivem momentos antológicos dos anos 60, caso de High Water (for Charlie Patton) em que Dylan retoma o surrealismo de Tombstone blues (O blues de Tombstone). Com um voz rascante, de um velho blueseiro (a canção é costurada por um banjo endiabrado), são cantadas imagens absurdas tais como: “Eles encurralaram Charles Darwin na rodovia 5/ O juiz ordena ao xerife High, quero o elemento vivo ou morto/ De uma ou outra forma, pra mim tanto faz”.

Impressiona o vigor destilado pelo jovem sexagenário nas novas canções. Impressiona mais ainda como ele consegue uma sonoridade dos anos 30 em Bye and bye, e ao mesmo tempo faz a música soar tão ou mais modernas do as que o herdeiro Jacob Dylan canta com o Wallflowers, e com versos assim: “Tento ler através da poeira/ O futuro para mim já é coisa do passado”.

A qualidade das canções de Love and Theft fazem-no comparável aos mais elogiados discos de Bob Dylan. Qualquer dúvida é escutar Honest with me. A canção soa como se Dylan acabasse de trocar o violão pela guitarra, provocando reações semelhantes às que Caetano e Gil tiveram que enfrentar quando introduziram o temível instrumento elétrico no seio da música popular brasileira em 1967 (Dylan antecipou-se em dois anos à dupla). Honest with me surpreende pelos timbres, os mesmos conseguidos em Blonde on blonde e Highway 61 revisited, gravações analógicas, com instrumentos plugados em amplificadores valvulados. Também nenhuma razão para surpresas, desde o segundo álbum, Freewheelin’, de 1963, Robert Zimmerman adiantava-se aos seu tempo, parafraseando Drummond, não queria ser apenas moderno, aspirava ser eterno.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.10.2001
Domingo