Daniela Mercury não deve estar nem um pouco chateada por Ivete Sangalo ser considerada hoje a rainha da música axé. Nem havia porque. A rainha pode até fazer sucesso, mas a axé definitivamente não está mais com essa bola toda. Artista que sempre soube dar rumos à carreira desde o início, na gravadora Eldorado, Daniela Mercury já dava sinais de que poderia tomar outro norte no disco Elétrica (1998), em que repassou sua fase carnavalesca. Naquele CD, ela voltou a ser a crooner de trio, cantando frevos de Caetano, sucessos pré-axé (Faraó, Divindade do Egito), e suas canções mais conhecidas.
No novo CD, Sou de Qualquer Lugar (BMG), ela radicalizou. Até no visual. As fotos de divulgação mostram a cantora assumidamente sensual, com pouca roupa, caras e bocas, inegável retoque no nariz afiladíssimo. Musicalmente, Daniela Mercury preferiu ser efetivada como boa cantora do que continuar apenas uma entertainer da música do momento. Os compositores baianos do hit de verão, foram substituídos por criadores do primeiro time da MPB. O disco abre com De qualquer lugar, de Lenine e Dudu Falcão. A letra longa, a levada roqueira, e programações de eletrônicas, demonstram que a moça não pensa mais em reinvidicar a coroa de Miss Sangalo.
Daniela Mercury não abandonou a música pra dançar, é o que ela parece querer dizer na música seguinte, uma rumba, Baiana havaneira, de Carlinhos Brown. Ela reinterpreta A praieira, com a mesma levada, acréscimo de programações, tornando-a mais dançante do que a versão do Nação Zumbi.
Um dos autores prediletos da cantora chama-se Márcio Mello, um carioca, radicado em Salvador (compositor de Nobre vagabundo, suceso do CD Feijão com Arroz, de 1996), e é um mistério soteropolitano. Mistério porque não se sabe a razão de ainda não ter emplacado por uma grande gravadora. Neste disco Mello deu para Daniela o funksambasoul Beat lamento, uma daquelas canções suingadas que cairiam bem no vozeirão de Tim Maia, e é muito bem aproveitada na voz de Daniela Mercury, intérprete cada vez mais segura.
Além de boa cantora, ela se afirma como compositora competente, caso de Estrela, um belo reggae, que divide com Toni Garrido, cantor medíocre, que, fato inusitado, consegue fazer um dueto decente com Daniela Mercury. Do reggae para Ata-me (também de sua autoria), um samba-reggae, que a moça ainda quer continuar a ser tocada no Pelô. Mutante, um dos últimos sucessos de Rita Lee, ganha vida nova com La Mercury, que com este disco ocupa o lugar que já foi da própria Rita Lee ou de Gal Costa. As duas já foram conhecidas por transgressões e por constantes incursões no novo. A primeira hoje anda fazendo teatrinho em disco de Edson Cordeiro; a outra há muito está devendo um disco à altura do seu talento.
Mas nada nem ninguém é perfeito, e Daniela Mercury não seria a exceção a essa regra. Sou de Qualquer Lugar peca por excesso de variedades rítmicas. Apesar de bonito, o xote Quem puder ser bom que seja fica parecendo imposição de gravadora para que fosse incluído no álbum um ritmo da moda, o tal forró universitário, embora o xote deste disco não tenha nada a ver com o forró de ocasião de Falamansa e quejandos.
Agora é ver se ela passa no teste: ser tocada nas rádios sem fazer mais parte da turma do ô, ô , ê, ê, ê, e outros intermináveis encontros vocálicos musicais, que levantam a galera no Carnaval, são insuportáveis em disco e até pouco tempo atrás eram onipresentes nas programações das rádios FM. (J.T.)