JC OnLine - Editoria Cidades
LG_jc.gif (3670 bytes)

CIDADANIA
Adoção sem preconceito

Livro mostra que, embora muita gente ainda seja contra a adoção de crianças por homossexuais, Estados como Pernambuco e Rio de Janeiro tentam mudar essa realidade

por CIARA CARVALHO

O juiz da 2ª Vara da Infância e da Juventude do Recife, Luiz Carlos Figueiredo, decidiu mexer com um assunto polêmico: a adoção de crianças por homossexuais. Ele vai publicar um livro mostrando como o tema ainda é tratado de forma preconceituosa pela sociedade e pela Justiça. Uma constatação confirmada no resultado de uma pesquisa realizada pelo autor em quatro capitais brasileiras, onde o percentual de pessoas contrárias à concessão de adoção em favor do homossexual chegou a 50% dos entrevistados.

O levantamento traz um dado revelador: entre as 1.058 pessoas ouvidas, quem apresentou maior rejeição à idéia atua justamente no Poder Judiciário. Para quase 57% dos promotores e procuradores entrevistados, o pedido de adoção pode ser negado em razão da opção sexual do candidato. Os representantes do Ministério Público se mostraram mais conservadores do que o grupo das donas de casa (52,8%) e dos advogados (50,3%). Por outro lado, os profissionais mais abertos em relação ao assunto são os assistentes sociais e psicólogos. Para apenas 25% desses profissionais, a condição de homossexual deve interferir no julgamento para adoção.

Embora a pesquisa tenha sido feita em quatro capitais brasileiras – Belém, Recife, Campo Grande e Belo Horizonte –, o juiz Luiz Carlos Figueiredo afirma que o preconceito está presente em todo o Brasil. “O mais perigoso e grave dessa situação é que estamos criando subcidadãos, pessoas que têm seus direitos negados apenas por causa da sua orientação sexual. E, na maioria dos casos, o julgamento é feito com base em estereótipos”, defende o autor do livro Adoção para Homossexuais, que será lançado no próximo dia 8, às 18h30, no prédio do Juizado da Infância e Juventude do Recife, na Rua Fernandes Vieira, Boa Vista.

O magistrado diz que Pernambuco e Rio de Janeiro são os Estados que estão tentando quebrar essa postura preconceituosa. “Temos defendido que o que deve ser levado em consideração na adoção é o superior interesse da criança e não a opção sexual do candidato. Se ele reunir todas as qualificações necessárias para atender às necessidades da criança, não tem por que o pedido de adoção ser negado”, observa Luiz Carlos.

O presidente do Grupo de Estudo e Apoio à Adoção (Gead), no Recife, Paulo Roberto da Silva, defende que os homossexuais tenham os mesmo direitos de solteiros heterossexuais. “Até porque, eles também podem ter filhos biológicos. Se a natureza permite, por que julgamentos de valor deveriam proibir?”, questiona. Paulo Roberto diz que, apesar do pensamento conservador, é possível notar avanços significativos. “A própria publicação de um livro falando sobre o assunto já é um indicador de que o tema está sendo mais discutido e, com o tempo, também será melhor aceito pela sociedade”, defende o representante do Gead.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 21.10.2001
Domingo