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CIDADANIA II
“Quero que meu filho case e me dê muitos netos”

A publicitária A.M.S. decidiu enfrentar o preconceito e tentar, pelos caminhos legais, adotar uma criança. Conseguiu. Mas para isso precisou esconder sua condição de homossexual. Fez isso com medo de ver o seu direito negado pela Justiça. Ela não acredita que o filho, hoje com 5 anos, será influenciado pela opção sexual da mãe. Muito pelo contrário. Se depender de A.M.S., ele vai casar e ter filhos. Muitos filhos. “Quero ter uma família grande e com vários netos”, planeja.

JORNAL DO COMMERCIO – Você teve mais dificuldade de adotar uma criança por ser homossexual?

A.M.S.Não. Mas isso só não interferiu porque em nenhum momento me perguntaram sobre minha opção sexual. E se tivessem perguntado eu teria negado. Durante as entrevistas fiz tudo para evitar que a equipe técnica notasse. Eu saí driblando da forma como pude. Procurei falar com estagiários, ser objetiva nas respostas. Fiz isso porque sei do preconceito que existe e, naquela situação, eu não podia correr risco. Se deixasse transparecer qualquer coisa, hoje não estaria com meu filho.

JC – Você acha então que a Justiça reproduz o preconceito da sociedade?

A.M.S.Com certeza. É difícil convencer as pessoas que o estão julgando no processo de adoção de que você é igual aos outros, só que com uma opção sexual diferente. Os valores morais são os mesmos, mas isso parece que se perde no julgamento. A sociedade acha que a criança vai ser colocada num local promíscuo, de doenças e que ela será influenciada por esse meio. Mas não ocorre nada disso. Eu dou para o meu filho a mesma educação careta que tive dos meus pais. Quero que ele seja criado no ambiente e com os mesmos valores familiares que eu recebi na minha casa.

JC – Você acha que ele poderá ser influenciado na sua orientação sexual?

A.M.S.Eu espero que não. Até porque eu quero ser avó. Quero que ele case, tenha uma família e me dê muitos netos.

JC – Mas se ele decidir, assim como a mãe, ser homossexual?

A.M.S.Eu vou respeitar, claro. Mas ele também terá que adotar filhos porque eu gostaria muito de ter uma família grande. Na verdade, eu torço para que ele não seja homossexual porque é muito difícil a relação afetiva, principalmente para o homem. Para o casal hétero, tudo conspira a favor por parte da sociedade e a relação amorosa é muito mais simples de ser mantida.

JC – Você conhece gays que, com medo da Justiça, preferiram adotar uma criança sem cumprir as exigências legais?

A.M.S.Conheço. Eu tenho uma amiga, por exemplo, que pegou uma criança na maternidade e registrou no cartório como se fosse sua filha. Ela alegou que teve o bebê no táxi, arrumou uma testemunha e resolveu tudo sem precisar falar com nenhum juiz. Todo o mundo que é homossexual tem medo da reação da Justiça por causa do preconceito. E muita gente fica surpresa comigo porque eu consegui.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.10.2001
Domingo