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José Teles A ‘de menor’ me lembrou Carlitos
Quer dizer então que o pó pro qual todos nós voltaríamos é o tal do antraz? E que aquele sambinha, “Quando o carteiro chegou/ e o meu nome gritou com a carta na mão/ Ai que surpresa tão rude/ Nem sei como pude chegar ao portão”, tratava-se do poeta popular prevendo o terrorismo postal? Nequinhas de carta. Doravante, minha senhora, só na base do i-mêiu. Comigo não violão, passando abacaxi que tomei leite, nem vem de garfo que hoje é dia de sopa, passando lagartixa, que minha parede é de azulejo.
Os ditados são antigos porque, com o negócio do pó assassino, um dito das antigas deveria voltar à moda: “Qualé o pó?”. Pois é, falava-se isso no comecinho dos anos 60. “Qualé o pó?” deu até marchinha carnavalesca. Esse buruçu do pó, é cada uma que dá dez. Um problema hoje viajar com as cinzas, vamos dizer, da genitora. Até que as autoridades convençam-se de que o que há na urna são cinzas e nada mais, o ente querido já foi vilipendiado até umas horas.
Convenhamos, é meio chato testemunhar aquela que nos pôs no mundo, que desdobrou fibra por fibra, que padeceu no paraíso, com o coração cheio de amor e o avental sujo de ovo, ser confundida com uma bactéria mau-caráter, que causa uma doença de nome meio esquisitão, antraz. Mas, enfim, são os percalços do mundo hodierno. É bomba nuns, bactérias noutros, apagão cá, fome acolá, uma tristeza.
O que se pode fazer, minha senhora, diletíssimos cem leitores? Estar permanentemente em estado Humphrey Bogart. Ou seja, com duas doses a mais do que o resto da humanidade. O diabo é que o precioso líquido deixa-nos de coração mole. Dias atrás, eu entornava, sozinho, uma braminha da antarctica no Calabouço, quando quedei a pensar nos DJs do Afeganistão.
Como estarão eles se virando pra descolar o pão nosso de cada dia, sem uma rave, sem um festival tecno, sem uma balada. Bem, balada até que rola - que lá o que não falta é bala - mas balada sem música não tá com nada. Apelando pros pacotes de comida dos norte-americanos? Cadê a turma dos direitos humanos que não faz um apelo em favor dos DJs do Afeganistão? Penalizei-me também com os barbeiros afegãos. Sem ninguém pra escanhoar (não podem barbear nem a si mesmos), que dureza não deve estar sendo a vida desses profissionais. Se ao menos lhes fossem permitido fazer as pernas ou o buço da moças. Mas qual o quê. Moça afegã, só por mostrar o rosto já leva não sei quantas chibatadas. Depilando pernas, acho que deve ser coisa pra empalação. Uma lástima, os caminhos que o mundo tá tomando.
Pois é, ando condoendo-me com facilidade por qualquer besteirinha. Quer dizer, andava até semana passada.
Novamente no Calabouço. Távamos discutindo um assunto importantíssimo: em que local vamos armar uma barraca que tencionamos montar na praia de Boa Viagem, a fim de falar do próximo de segunda a domingo. Nisso a malta é interrompida por uma adolescente. Segurando um bebê nos braços, ela nos lança um olhar penoso, na esperança de um óbulo. Contristei-me e levei a mão ao bolso à cata de umas moedas. Foi aí que o pintor Félix Farfan estranhou: “Oi, e o nenê é galego?” Nem era galego, nem era nenê, era um cachorro. Quando Farfan falou, o cão botou a cabeça pra fora do pano que o cobria.
A senhora acha que a guria encabulou-se com a armação canina? Fez foi rir, botou o vira-latas no chão e foram-se. Não sei porque, mas aquela ‘de menor’ e seu cachorro, na Sete, no meio da plebe rude, fizeram-me lembrar o the end de um filme de Carlitos.
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