Levantamento realizado em 14 unidades de conservação de cinco Estados nordestinos mostra ainda que desmatamento está causando a diminuição de algumas espécies
por VERÔNICA FALCÃO
Os cogumelos, nome comum dos fungos macroscópicos, somam na Mata Atlântica do Nordeste mais de 60 espécies do tipo orelha-de-pau, aquele que geralmente se desenvolve em troncos de árvores caídos. O levantamento, iniciado há um ano pela bióloga Tatiana Baptista Gibertoni, é realizado em 14 unidades de conservação, de Sergipe ao Rio Grande do Norte, e revelou oito novos registros para o Brasil. A pesquisa também identificou o declínio da população de orelhas-de-pau encontradas em abundância na década de 70, como a denominada cientificamente de Hexagona hydnoides.
Na opinião de Tatiana, que está fazendo doutorado em Biologia de Fungos na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o declínio está associado ao desmatamento. “As orelhas-de-pau dependem das árvores para sobrevier”, justifica. A comparação entre as populações desses cogumelos existentes nos anos 70 e as atuais é feita com base em levantamento da orientadora de Tatiana, a professora Maria Auxiliadora de Queiroz Cavalcanti, que há trinta anos pesquisa as orelhas-de-pau em Pernambuco.
O trabalho de Tatiana é feito em duas unidades de conservação de Sergipe, duas de Alagoas, quatro de Pernambuco (Açude do Prata, no Parque de Dois Irmãos; Saltinho, em Tamandaré; Gurjaú, no Sul do Grande Recife; e o Refúgio Charles Darwin, em Igarassu), quatro da Paraíba e duas do Rio Grande do Norte. Em Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte, afirma a pesquisadora, este é o primeiro levantamento de cogumelos já realizado. “Por isso, todas as espécies de orelha-de-pau registradas nesses três Estados são também novas ocorrências.”
A bióloga lembra que os cogumelos são importantes para o meio ambiente porque reciclam a matéria orgânica, liberando nutrientes para as plantas, e servem de alimento para inúmeros insetos. Durante a pesquisa, Tatiana observou ainda o grau de podridão do tronco colonizado pelas orelhas-de-pau. “Dessa forma consigo saber se uma espécie é pioneira”, justifica.
Ela também faz anotações sobre o grau de exposição ao sol, para conhecer se a espécie é resistente. “Como geralmente os cogumelos ficam na sombra, encontrá-los sob elevada radiação pode indicar o nível de degradação de uma mata”, relaciona. Um exemplo é a orelha-de-pau da espécie Pycnoporus sanguineus, observada normalmente em ambientes abertos, expostos ao sol.