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MEMÓRIAS
O Rio São Francisco perdeu suas borboletas

Já houve uma época em que o São Francisco era um rio que oferecia um verdadeiro espetáculo para quem nele navegava. Livro com fotos e roteiro editado há 62 anos mostra o quanto as mudanças são significativas

por JAMILDO MELO

O Rio São Francisco não é o mesmo após 500 anos de exploração, comemorados no dia 4 passado. O livro de fotos Roteiro de Paulo Afonso, editado há 62 anos pelo advogado pernambucano Edgard de Cerqueira Falcão, permite constatar curiosas transformações na paisagem social do Velho Chico.

As fotos de época eternizam, nesse livro de viagem, o espetáculo das originais canoas à vela vulgarmente conhecidas até então como “borboletas”, em razão do aspecto alado que assumiam, vistas de frente ou de trás. As borboletas não existem mais. Boa parte dos barcos hoje é movida a motor.

A exemplo das borboletas, o livro mostra também fotos dos antigos ‘paquetes’, como eram chamadas as canoas com velas quadrangulares. Esse tipo de canoa, hoje também banido do Velho Chico, era reservado aos longos percursos e ao transporte de cargas mais importantes. Com a chegada das rodovias e o fim da navegação, o São Francisco perdeu sua função de estrada líquida.

O relato do turista pernambucano – integrante de uma expedição destinada a conhecer a Cachoeira de Paulo Afonso, na divisa entre Pernambuco e Bahia – já revela a divisão de classes. “No pavimento inferior do navio, um mundo estranho se acotovelava”, descreve o viajante, a bordo do vapor fluvial Comendador Peixoto, que fazia regularmente a rota entre os portos de Penedo e Piranhas, em Alagoas. “Animais de toda espécie e gente de toda categoria e procedência se misturavam”. Hoje, o feitiço encantador da famosa cachoeira é o mesmo, mas apenas a turma do andar de baixo continua usando o rio como meio de transporte.

No mais, o relato de Edgar de Cerqueira Falcão, em alguns trechos, soa tão atual que não parece escrito há 62 anos. “Descortinamos lindos panoramas do vale, entrando a seguir numa zona hostil e esquecida de Deus. Só o xique-xique aí medra”.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.10.2001
Domingo