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Hora de fazer a própria imagem

É crescente a preocupação ‘séria’ de crianças com a apresentação pessoal. Acompanhar as tendências e ter corte moderno não é mais brincadeira

A imagem da garotinha que sobe na penteadeira do quarto da mãe para brincar com maquiagem e do menino que pede para ‘fazer a barba’ com o pai está com seus dias contados. É cada vez maior a preocupação ‘séria’ de crianças com a apresentação pessoal. As cobranças de uma pele bonita, um cabelo com corte moderno e uma roupa da moda deixaram de ser brincadeira. De olho nas mudanças, o mercado fashion e de cosméticos investe pesado nos novos e exigentes consumidores.

Entre eles, está Marcelo Lins Filho, de 8 anos. Para ele, o segredo para impressionar as meninas – além de uma boa produção de tênis e bermuda-cargo – está nos cabelos. Marcelo é vidrado em cortes, tendências e penteados que deixam a juba irresistível para qualquer garota. Tanto, que não sai de casa sem colocar gel (até para ir ao colégio) e fica ligado no visual dos garotos de boy bands, como Backstreet’s Boys e N’Sync. “Por causa deles, já colocou mecha no cabelo. Também não dispensa um colar de couro com medalha”, conta o comerciário Marcelo Lins, pai do menino.

Já a preocupação da relações públicas Célia Simião, 40 anos, é o fato de seu filho Wendell, 8 anos, não saber escolher a roupa certa para cada ocasião. “Ele só quer usar sapato de bico fino, gravata e paletó. Outro dia estreou uma roupa num aniversário e já queria ir no dia seguinte com ela para a natação”, protesta, lembrando que o filho “só quer estar alinhado”.

Mas o pequeno Wendell nem liga pra isso. Apesar de jovem, ele é louco por gravatas e está sempre conferindo os ternos: “O próximo que eu quero é um igual ao do 007”, avisa. Além do paletó preto, seu atual sonho de consumo é uma calça de couro marrom. “É porque tá na moda”, completa. Tanta preocupação com o visual é para impressionar os outros. Ele morre de medo de ser visto como ‘mal-arrumado’ por quem quer que seja. “Já pensou passar pela rua e alguém apontar para você e dizer: ei, olha que menino feio?”.

DIGA ESPELHO MEU – Quando é hora de decidir o que levar numa loja, o que poderia se tornar um tormento, transforma-se em lição. Normalmente as gêmeas fraternas Jéssica e Joele Azevedo, 10 anos, estão livres para comprar as roupas, mas não sem antes uma pré-seleção feita pela mãe, a psicopedadoga Jaidenise Azevedo, 36 anos. A triagem segue dois requisitos: preço e ocasião.

“Isso é importante para analisar a sociedade consumista. Dou o limite, pois se daqui a alguns anos elas não puderem adquirir tudo o que desejam, estarão preparadas”, comenta, deixando claro que o que deve mover a compra é a necessidade. Elas nunca se vestiram iguais, nem gostam de trocar roupas entre si, até porque seus gostos são diferentes. Isso ajuda a definir a identidade de cada uma.

Enquanto Jéssica não está tão preocupada com a roupa – “gosto de usar jeans e uso para me sentir bem. Mas penso mesmo é em me divertir”, adverte –, Joele é mais antenada em moda: “Quando me arrumo, penso em como vai ficar o meu visual. Gosto sempre de estar bonita”. Se saísse para comprar roupa hoje, levaria uma calça-cargo de cintura baixa. “Acho legal”, completa. (D.B)

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Jornal do Commercio
Recife - 12.10.2001
Sexta-feira