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Olhar de Anjo acaba ‘soando’ como filme de auto-ajuda

por JÚLIO CAVANI

Olhar de anjo pode ser enquadrado no desgastado rótulo ‘auto-ajuda’. O filme, que estréia hoje nos multiplex, utiliza o melodrama para tentar transmitir mensagens otimistas sobre a vida e sobre como amor e o perdão levariam à superação de qualquer trauma instantaneamente.

Jennifer Lopez vive uma policial durona (e bem durinha de corpo) apaixonada por um misterioso homem que salvou sua vida. A príncipio, o filme promete ser de uma espécie de gênero policial-romântico-água-com-açúcar, o que já não seria tão apreciável. Mas Jennifer vai descobrindo a verdade sobre seu intrigante salvador, e a pretensão de ser ‘tocante’ toma conta da trama.

Aos poucos percebe-se uma inclinação ao drama que culmina com uma forçada extorsão de lágrimas. Isso nem sempre é tão mal, mas aqui é feito através de recursos que facilitam de forma apelativa esse objetivo: esposas espancadas por maridos e acidentes fatais envolvendo crianças.

O homem enigmático que atiça a policial se chama apenas Catch, ou seja, não tem sobrenome (e nem nome) e é interpretado por Jim Caziviel. O ator parece não decidir se dá ao personagem um perfil de outsider, zumbi, bom de papo ou com distúrbios cerebrais. Cada situação acaba mostrando o rapaz com um caráter diferente, o que indica que a fundamentação do trabalho de construção do personagem também é meio misteriosa.

Sônia Braga faz uma ponta, como a mãe de Lopez, e não decepciona quem ainda esperaria alguma coisa dela. Suas cenas são emocionalmente fortes e ela consegue mostrar segurança, reafirmando que consolidou a carreira em novelas brasileiras, e não mexicanas (como talvez exigiria o filme).

Na Fundação, a partir de amanhã, entra em cartaz a descomprometida comédia russa As Bodas. Num cenário de alívio pós-socialista em uma pequena comunidade, um jovem mineiro recebe uma proposta de casamento vinda de sua namorada de infância, uma modelo recém-chegada de uma bem sucedida carreira em Moscou.

O Art Guararapes traz o suspense sobrenatural espanhol A Espinha do Diabo, produzido por Almodóvar. O Cine-Teatro Apolo dá mais uma chance para quem perdeu Copacabana, de Carla Camurati e o Cinema do Parque reabre na terça com uma sessão gratuita do filme Domésticas, aclamado no último Festival do Recife.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.10.2001
Sexta-feira