LG_jc.gif (3670 bytes)

COMPORTAMENTO
Da selva ao divã

Criador de personagens como Radical Chic, o cartunista Miguel Paiva lança o livro Sentimento Masculino, que constata o óbvio: homens têm emoções, mas não sabem como lidar com isso

por MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo

Depois de viver uma violenta crise afetiva, o cartunista Miguel Paiva, criador dos personagens Radical Chic e Gatão da Meia-idade, deparou-se com uma insólita descoberta: o homem, especialmente ele, sente. E sente coisas terríveis, como medo, fragilidade, depressão, desamparo, geralmente desconhecidas pelo sexo masculino, criado, segundo ele, para vencer na vida e ser o tal. Mas, aos 50 anos, Paiva se viu perdido numa selva de emoções estranhas, muito mais apavorantes que a realidade distante dos atentados terroristas.

Para enfrentar os fantasmas dessa floresta, ele se armou com terapia, ginástica, boa alimentação e criatividade. O resultado da batalha é o livro Sentimento Masculino, uma reflexão sobre a dificuldade biopsicocultural dos homens de lidarem com suas próprias emoções, à venda em novembro pela Record.

“Percebi que a mulher, talvez pelo fato de gerar um filho, tem um contato mais intenso com o seu mundo interior. O homem tem contato com o mundo externo. Tratamos nossos sentimentos como tratamos os outros: maltratamos, desprezamos e ignoramos. Quando a vida me obrigou a encará-los, foi um susto. Fiquei perdido nessa selva”, diz o cartunista.

MATO SELVAGEM EM JARDIM – Para transformar essas emoções primitivas em flores bem cultivadas de um jardim, é preciso regá-las com explosões de lágrimas, um choro convulsivo que, segundo ele, resultou numa das maiores sensações de plenitude que sentiu na vida.

“Do mesmo jeito que, no ato do amor, a ejaculação dá para o homem a sensação de prazer e plenitude, no ato do sofrimento o choro exerce a mesma função. Deixar fluir essa água é saber que existe dentro de você uma fonte de sentimento e afeto que o torna uma pessoa melhor”, revela.

A dificuldade de lidar com as próprias emoções é constatada por homens de gerações diferentes. O poeta e apresentador de TV Michel Melamed, por exemplo, diz que está mais acostumado a falar das mulheres que de seus sentimentos: “Não é melhor falar das relações e das mulheres? É mesmo para falar de mim? Ah, então eu vou chorar”, diz ele, logo recusando a proposta para que chorasse à vontade. “Sabe o que é? Eu não sei chorar muito. Na verdade, eu queria chorar muito mais, mas não consigo. Tenho muita dificuldade de lidar com meus sentimentos”, explica.

O ator Evandro Mesquita acha saudável o homem lidar com sua fragilidade, desde que não viva chorando pelo mundo: “Oh, céus, isso é conversa para uma vida inteira! Mas detesto esse tipo fragilizado. Mulher frágil já é um saco, homem, então, nem se fala. Somos guerreiros com cicatrizes. Sofremos, mas continuamos na luta”, diz.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 21.10.2001
Domingo