A dificuldade em lidar com emoções se deve, segundo psicanalistas, à conturbada relação entre aspectos culturais tidos como masculinos ou femininos
Para o psicanalista Nahman Armony, professor de pós-graduação do Departamento de Psicologia da Universidade Santa Úrsula, a dificuldade de homens como o cartunista Miguel Paiva de lidarem com seus sentimentos se deve à fase de transição em que se encontram hoje os aspectos masculinos e femininos.
“Vivemos uma época em que os homens fortes e poderosos começam a admitir as suas fraquezas e as mulheres frágeis, dependentes e bobas começam a valorizar características masculinas. A antiga e a nova identidade convivem lado a lado. Os homens querem admitir suas fragilidades, mas ainda são travados nesse desejo por sua antiga maneira de se colocar no mundo”, diz.
Nahman comenta que a dificuldade dos homens de recuperar seus aspectos femininos, como amor, afeição, tendência à conciliação, admissão e expressão de emoções, é agravada pela vida numa sociedade extremamente competitiva. Para vencer na vida a qualquer custo, os homens voltam a se fixar em suas características masculinas.
“As características femininas, relacionadas ao instinto materno, implicam ainda em empatia, no reconhecimento das próprias fragilidades e na aceitação da necessidade e da ajuda dos outros”, diz.
O psicanalista comenta que as características femininas convergem para uma ampla integração dos seres humanos, como uma grande família. “Minha esperança é que a participação da mulher na vida pública e profissional torne as atividades menos voltadas ao benefício pessoal e egoístico e mais ao social”, diz.
A utopia de uma vida mais afetuosa também é cultivada por Miguel. O importante, para ele, é recuperar a confiança na capacidade de amar: “Os homens devem se preocupar mais com o que eles sentem e não tanto com o que as mulheres sentem por ele. O livro é uma tentativa de entender o que se passa comigo e com as mulheres”.
Algumas lições básicas, esse jardineiro das emoções já começa a aprender. Ele recomenda, por exemplo, que o cuidado com uma planta seja o mesmo dispensado à parceira. “Não adianta aumentar a luz do sol nem encharcar a planta de água, pois ela não vai crescer mais rapidamente que o tempo natural. Não sei se plantas enlouquecem. Sem consciência da própria morte, talvez consigam se manter sãs. Diferentemente de nós, que deixamos a loucura crescer porque acreditamos que somos capazes de mudar o tempo natural das coisas.”
Para entrar na selva dos sentimentos, os homens devem questionar padrões de comportamento masculino, a começar pelo poder econômico. O provedor da família atual — que ele chama de acampamento familiar, com ex-mulheres, filhos de vários casamentos, maridos de ex-mulheres, meio-irmãos, enteados e ex-enteados — deve ser generoso o bastante para não transformar as suas doações em relações de poder. Isso aniquilaria o valor das doações.
“A dependência econômica estabelece uma forma de poder das mais nocivas e a mais exercida entre o homem e a mulher. Essa é a quebra de poder que mais ameaça o homem. Mulheres que vão embora sem levar nada fazem a ofensa maior ao detentor do poder abandonado. Que ela consiga viver sem você já é pesado, mas que viva sem o seu dinheiro reduz o poder masculino a uma falta de ereção na hora da penetração”, diz.
MANEIRA DE AMAR – Questionar esses velhos padrões é o primeiro passo em busca de uma nova maneira de amar. Evandro Mesquita concorda. Ele acha até que o homem está civilizado demais e devia buscar um contato maior com a natureza.
“Quando ele quebra esses apegos materiais, vive em maior harmonia. A descoberta da fragilidade é o primeiro passo para o fortalecimento emocional. Tem um mestre do judô que diz que quando a gente descobre que não sabe nada faz o primeiro progresso. Isso vai garantir uma velhice mais sábia, sem muita agonia. Mas tudo sem exagero na fragilidade. Todo mundo tem que segurar seu ombro para não pesar no do outro”, ensina.
Já Michel Melamed espera que depois dessa inversão de papéis, na qual as mulheres só querem cada vez mais sexo e os homens só querem sexo com amor, surja enfim o novo casamento, com uma nova forma de amar. “Eu tinha uma idéia de casamento incondicional, que vence todas as fases ruins. Mas meu casamento acabou há três meses. Fiquei desnorteado, caí na gandaia, mas quero uma nova maneira de amar. Que não seja o casamento convencional, nem o ‘cada um na sua’, que gera sempre traições e ciúmes, mas um novo. Já temos o novo ritmo, o novo homem, o novo mundo. Só falta agora o novo casamento”, diz Michel.(M.C.)