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GUERRA AO TERROR V
A informação usada como arma de guerra

O Governo dos EUA pediu às empresas jornalísticas do país controle no que é divulgado. A resposta das televisões foi positiva, o que levantou um longo debate sobre censura e liberdade de expressão

por CIARA CARVALHO

Em tempos de guerra, a informação é arma das mais valiosas. E no país que serve de modelo (mais do que qualquer outro) para a liberdade de expressão, o pedido feito pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, para que imagens e declarações de terroristas sejam previamente editadas estourou como uma bomba nas mãos da mídia internacional. A questão de todos os dias, tornou-se ainda mais delicada: como exercer o ofício com responsabilidade, mas sem abrir mão do compromisso de informar? Uma pergunta de difícil resposta, sobretudo quando o campo de batalha pode ser a própria mídia. A decisão das TVs de atender ao apelo da Casa Branca fez a sombra da censura se espalhar sobre as grandes empresas jornalísticas. Historicamente, o que a imprensa norte-americana sempre mostrou é que, de posse da informação, a notícia era publicada. E, historicamente, essa sempre foi a melhor escolha.

Não é nenhuma novidade que, durante um confronto armado, os dois lados do conflito recorram à mídia, pedindo que a informação seja controlada. Faz parte do jogo. Assim como faz parte a imprensa dizer não. O inusitado, nesse caso, foram as dimensões do fato que gerou todos esses desdobramentos. No dia 11 de setembro, não foi só o mundo que foi tomado pelo choque de ver as torres do World Trade Center virem abaixo. A imprensa norte-americana também foi pega de surpresa. E sentiu o baque de ver o seu país, até então invulnerável, chorando a perda de vidas inocentes. O problema é que, ao se solidarizar com uma dor legítima, a mídia abriu o flanco para que o patriotismo ditasse regras perigosas que ameaçam as noções básicas do bom jornalismo.

O patrulhamento já fez suas primeiras vítimas. No mês passado dois jornalistas foram demitidos de pequenos jornais norte-americanos por escrever que, no dia dos atentados terroristas, o presidente Bush havia sumido de Washington, parecia perdido e pouco presidencial. A cobrança bateu à porta também das grandes redes de TV. O âncora Peter Jennings, editor-chefe do ABC Evening News e um dos principais jornalistas da TV americana foi bombardeado por telefonemas e e-mails de espectadores enfurecidos pelo mesmo motivo: ele havia questionado o sumiço de Bush no dia 11 de setembro. Jennings ainda foi alvo de críticas por ter proibido o uso de bottons com bandeiras norte-americanas pelos seus subordinados na redação.

Os episódios serviram para expor como funcionam as complicadas, e não raro contraditórias, relações entre o poder, o jornalismo de massa e a sociedade. Quando a CNN admite, em nota oficial, que buscará “a orientação das autoridades apropriadas” em caso de dúvidas sobre como transmitir as mensagens de Bin Laden e de seus porta-vozes, os defensores do jornalismo isento e independente ficam arrepiados. “Estou começando a ficar preocupado com esse padrão de controle da informação imposto pela Casa Branca”, declarou Bob Zelnick, diretor da Escola de Jornalismo da Universidade de Boston e ex-correspondente da rede ABC no Pentágono.

Diante da posicão norte-americana, dois grupos de comunicações britânicos – a rede de TV BBC e a agência de notícias Reuters – fizeram questão de dizer ao mundo que, em suas empresas, a história é diferente. Eles deixaram claro a política da casa de não empregar a palavra terrorista para descrever os ataques contra os Estados Unidos e nem mesmo para qualificar os autores dos atentados. Com essa conduta, a BBC e a Reuters acreditam manter a imparcialidade diante dos fatos, evitando os termos emotivos.

Um cuidado que se justifica. No jogo da informação, o peso das palavras é fundamental. É interessante observar que os mesmos guerreiros talebans que hoje são vistos como extremistas e perseguidos por darem guarida a Osama bin Laden, já foram chamados pelos próprios norte-americanos como defensores da liberdade. A guerra, claro, era outra. Contra os soviéticos. E, em plena guerra fria, os Estados Unidos tinham todo o interesse de colocar os russos para fora do Afeganistão.

É certo, no entanto, que a tentativa de censurar a informação não é uma prerrogativa exclusiva apenas do governo norte-americano. Do outro lado do front, um Taleban pouco chegado às liberdades de expressão também tem dificultado o trabalho da imprensa. Quando a milícia que controla o Afeganistão resolveu divulgar um pouco mais do que está ocorrendo no seu devastado país, fez do jeito que quis. Juntou um grupo pequeno de jornalistas e o levou para uma aldeia, onde os bombardeios norte-americanos teriam matado 200 pessoas. A imprensa teve que se contentar com a visita dirigida. Em época de guerra, pouca informação é melhor do que nenhuma.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.10.2001
Domingo