O jornalista Alberto Dines faz uma avaliação do desempenho da cobertura de guerra da imprensa brasileira e diz que, cada vez mais, o jornalismo precisa ser uma profissão de excelência
Com a imprensa dos Estados Unidos no foco das discussões sobre liberdade de expressão, o jornalista Alberto Dines avalia que falar em autocensura na mídia norte-americana “é uma idiotice”. Em entrevista por telefone, concedida à repórter Ciara Carvalho, ele discorda que haja uma onda de patriotismo varrendo as empresas jornalísticas dos EUA. “O que há é solidariedade”, diz o editor e apresentador do programa Observatório da Imprensa.
JORNAL DO COMMERCIO – O senhor avalia que está havendo autocensura por parte da imprensa norte-americana?
ALBERTO DINES – De jeito nenhum. Eu desafio que alguém aponte algo que a imprensa norte-americana deixou de dar. O que está ocorrendo é o tradicional antiamericanismo. Nós estamos sendo vítimas de uma desinformação a serviço de preconceitos remanescentes da guerra fria. A elite intelectual brasileira, sobretudo a acadêmica, trata a questão do terrorismo cheia de dedos. Transforma os Estados Unidos em vilão. O que houve foi um erro estratégico, conceitual do governo Bush de fazer esse apelo público. Agora dizer que, a partir deste erro, já há uma censura nos Estados Unidos é uma idiotice. Isto é espalhar o terrorismo informativo. O que a CNN e as outras emissoras fizeram foi prometer não colocar ao vivo antes de examinar o material. Isso é uma guerra. E eles estão em guerra. Então eles não vão botar a palavra do inimigo sem exatamente saber o que o inimigo está dizendo.
JC – Após esses episódios, o mito da objetividade jornalística caiu por terra?
DINES – Não tem nada a ver. Essa coisa está cheia de lugar comum, de preconceito e é isso o que está me preocupando. As pessoas não querem ver as nuances das coisas. E as nuances são essas: o Bush é burro. Agora a imprensa americana não é burra. O padrão internacional de jornalismo ainda está sendo dado pelo jornalismo anglo-saxão, que é inglês e americano. Mas, nessa discussão, é importante lembrar que a CNN não é o jornalismo americano. É que as pessoas até ontem achavam a CNN bárbara. Eu sempre disse que a CNN era jornalismo de terceira categoria. Que nos Estados Unidos há coisa muito melhor.
JC – Como o senhor avalia o sentimento de patriotismo que tem sido observado no jornalismo norte-americano?
DINES – Se cinco mil pessoas morressem no Recife, você não acha que a mídia de Pernambuco iria ficar solidária? Isso não é patriotismo, é solidariedade. Houve a percepção e o atendimento ao sentimento do leitor. E se não houvesse isso, eles não seriam bons jornalistas. Mas se for patriotismo, está errado? O Brasil não foi patriota na 2ª Guerra Mundial? Claro que sim. O que eu acho que existe é uma série de preconceitos, de simplificações, que são inadimissíveis.
JC – Em casos, sobretudo, de guerra, como resolver o impasse entre a responsabilidade das empresas jornalísticas e o compromisso de informar sem abrir mão da livre expressão?
DINES – Nesse momento, eu não vejo problema. Agora surgiu uma onda de críticos que nunca se manifestaram sobre os problemas da mídia brasileira. E hoje se acham no direito de dizer que as empresas jornalísticas norte-americanas estão comprometidas. Impasse eu vejo aqui na mídia do Brasil que é dominada por três ou quatro cabeças. Agora o embate entre o que deve ser divulgado e os interesses por trás da notícia é um confronto diário. É a essência da profissão jornalística. A Folha de São Paulo, por exemplo, cedeu a um apelo do Sílvio Santos porque a filha foi seqüestrada. Não tinha razão de fazer uma censura total e ela fez. A Folha, portanto, não tem razão de reclamar da autocensura norte-americana porque ela própria fez uma censura que não era necessária.
JC – Como está o desempenho da imprensa brasileira na cobertura do conflito?
DINES – Nada de extraordinário. Está fazendo o que pode fazer diante da pobreza de recursos. Hoje você não tem especialistas na mídia. Se você pegar um editor de internacional e pedir para ele escrever sobre o problema da Caxemira, sem nenhum tipo de consulta, ele não consegue escrever porque não sabe. Não houve investimento, treinamento. Tem gente boa, mas são muito poucos. Falta o desdobramento da informação, a explicação. Não está havendo capacidade de ver as nuances. Fica colunista dando opinião sobre coisa que não entende. O que teve de rádio aqui em São Paulo entrevistando pessoas que não entendiam nada sobre o conflito, os especialistas de nada. Há um esvaziamento da informação. Eu não sei se isso começa no meio acadêmico e passa para a imprensa, mas, de qualquer forma, é um ciclo inteiramente vicioso porque não há enriquecimento. A mídia não tem especialista, a academia só tem burocratas que fazem tese copiando biografias já publicadas que não valem nada. E acaba nisso: a burrice titulada.
JC – E quanto ao patrulhamento que está havendo em relação à postura de alguns jornalistas norte-americanos? Um deles chegou a ser criticado porque proibiu a redação de usar bottons com a bandeira norte-americana.
DINES – Eu também teria pedido aos meus colegas e subordinados que não usassem bottons ou camisetas. Porque aqui no Brasil é muito comum, em época de eleição, jornalista ir para as redações com camisetas de partido. Eu acho que o jornalista tem que, pelos menos, vestir a imparcialidade. E eu acho justo que tenha sido proibido. É uma recomendação sábia pedir que jornalista não tome posições. Se houve um patrulhamento por causa dessa decisão, é claro que eu não concordo. Mas não podemos fazer o debate sobre a mídia só no âmbito dos Estados Unidos porque é muito cômodo. Eu quero discutir o comportamento da mídia aqui. E não só da mídia, mas do jornalista. Porque aqui a gente pode influir. Lá, a gente não pode. Eu quero discutir a postura dos jornalistas que vestem a camisa do partido e fazem o trabalho da desinformação.
JC - Qual o impacto dessa guerra para a mídia?
DINES - Os atentados foram montados e encenados para a mídia. E a prova disso é que os dois aviões atingiram as torres com uma diferença bastante razoável de tempo, para que o segundo fosse mostrado. As primeiras vítimas do antraz também foram os jornalistas. Porque no terrorismo você tem que magnificar. Se você der um gritinho, não é ouvido. Se você magnifica o grito, você aterroriza. Então, é a mesma coisa. Eles começaram com a imprensa. O que a imprensa precisa entender é que o campo de batalha, não apenas agora, mas sobretudo hoje, é a mídia. Quem conquistar a mídia, ganha o confronto. A informação é arma de guerra. Sempre foi, mas sobretudo agora. Por isso, a mídia não pode virar joguete de interesses políticos, econômicos, religiosos. O jornalismo hoje tem que ser uma profissão de excelência, de ponta.
JC - Qual a importância do surgimento da TV árabe Al-Jazeera para a democracia da informação?
DINES - Ela é uma TV estatal, financiada pelo governo do Catar. E o Catar está diametralmente oposto ao conceito de democracia. Ele não tem o menor compromisso com liberdade, direitos humanos. E tem interesses políticos. E esses interesses são manifestados por meio de sua emissora. Foi um golpe de marketing brilhante, genial, sobretudo junto ao mundo árabe. Mas dizer que isso é um novo padrão de jornalismo, não é. Eu acho que a Al-Jazeera só vale como alternativa. Em matéria de credibilidade, ela ainda não mostrou seus padrões jornalísticos porque não há muita preocupação com isso. Eles são uma emissora de propaganda de um regime reacionário. Agora acho importante e essa é chave do futuro para a mídia que ela seja pluralista, múltipla. Não faz sentido que o diretor da Globo News, por exemplo, vá no Observatório da Imprensa falar mal da CNN e aí eu pergunto para ele porque que o seu canal não reproduz a BBC. Ele responde que a BBC é mais cara. Então, ao meu ver, quem está prestando um desserviço é ele, porque está escolhendo o que há de pior, quando podia oferecer o que há de melhor. A responsabilidade é de todos.