LG_jc.gif (3670 bytes)

GUERRA AO TERROR IX
Na guerra, a verdade sempre morre primeiro

por FERNANDO MENEZES

A fronteira que separa a censura da indução à censura é estreita. Seja como for, o melhor é o largo caminho da plena informação. Sim, sabemos e concordamos todos com o lugar comum: informação com responsabilidade. De qualquer forma, não dá para confundir responsabilidade com patriotismo. Mas, infelizmente, é isso que parece estar acontecendo com a imprensa dos Estados Unidos. Estamos lendo e vendo uma avalanche de mesmice, além da constatação de que ocorreu em Nova Iorque e em Washington, o terror limpo. Não há sangue, não há a imagem de um só cadáver, não se vê os feridos. O que os olhos não vêem, o coração não sente. Para que estressar ainda mais o povo americano?

Só que todo o poderio militar não é capaz de comandar os fatos. O antraz trouxe de volta o pesadelo. Não há mortos e nem feridos nos telejornais e nem nas imagens dos periódicos, mas há o pó branco, imprevisível, assustador. O governo nem pode pedir para evitar o assunto, o pó apareceu dentro das redações, um horror. Não se vence o medo com o silêncio, aliás, a primeira reação ao medo é o grito, que avisa, que pede socorro, que desabafa.

Não há censura explícita, a mídia aderiu, como já concordou em silenciar outras vezes, nos casos de seqüestros por exemplo. Silenciar para garantir a vida das vítimas. Mas com uma guerra em curso, o silêncio é difícil, pode se tornar ensurdecedor. As famílias vão exigir o conhecimento do que atravessam seus filhos, a que perigos estão expostos. De qualquer modo, é lícito lembrar que não é a primeira vez que o governo controla a informação. Depois de Pearl Harbor, em 1942/43, os descendentes de japoneses foram segregados em dezessete campos de concentração, e o povo americano apenas ouviu falar disso, vagamente, até o fim da guerra. Os japoneses mandaram dezenas de bombas incendiárias a bordo de balões. O objetivo era causar incêndios devastadores nas cidades da costa do Pacífico. Felizmente, a maioria caiu no mar. Mas, algumas caíram em fazendas, destruíram plantações e vivendas, mataram o gado. Silêncio, nem uma palavra, para não causar pânico. A guerra acabou, os Estados Unidos venceram, e então, soube-se de tudo. Esta guerra também vai acabar, os Estados Unidos vão vencer, e então, saberemos tudo, inclusive que crianças afegãs morreram sob os escombros, que centenas de outras pessoas morreram nos hospitais à mingua de medicamentos. E até veremos impressionantes fotos de tristeza e sofrimento. Algumas vão ganhar prêmios de fotojornalismo. A guerra é assim e sua primeira vítima, já disse alguém, é sempre a verdade!


Jornal do Commercio
Recife - 21.10.2001
Domingo