Prefeito de Petrolina perde força nas articulações para 2002 e pode comprometer seu maior projeto político: o de repetir a façanha do tio Nilo Coelho, chegando ao Palácio das Princesas
por ANA LÚCIA ANDRADE
Se o prefeito de Petrolina, Fernando Bezerra Coelho (PPS), pudesse voltar no tempo, não teria seguido tão à risca o estilo intempestivo da família Coelho. Tamanha foi a inabilidade do pós-comunista, nesses últimos dias, que políticos, dos mais políticos, recorrem ao emocional para tentar entender tal comportamento. O day after do bombardeio que disparou contra o seu partido e contra um dos mais fortes aliados político das oposições – o Partido dos Trabalhadores – fez o próprio prefeito reconhecer, em confidência, que no primeiro tempo da partida para a sucessão estadual de 2002, ele mesmo estancou o seu projeto majoritário de ser o nome da unidade das oposições na sucessão estadual de 2002.
A derrota, praticamente fadada, não virá somente para si. “Eu posso até ter perdido, mas essa história de hegemonia do PT – de ter a Prefeitura do Recife, o Governo do Estado e ainda a Presidência da República – não vai ficar assim. Eles (petistas) pensam que ninguém mais tem força em Pernambuco”, reproduziu um dos que presenciaram, nesses dias, os desabafos de Bezerra Coelho.
A providência imediata de procurar o vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira (PCdoB), numa demonstração de querer retomar a unidade, não passa de uma tentativa de Fernando Bezerra de amenizar o cenário amargo que criou. Em reserva, confidentes aos desabafos do prefeito garantem que ele virá com tudo para cima do PT.
A saga do pós-comunista, agora, será a de fazer de tudo para inviabilizar a unidade dos partidos de oposição em torno do candidato petista. E o primeiro passo já foi dado, quando o porta-voz de Bezerra, o deputado estadual Ranilson Ramos, defendeu a composição PPS/PSB para puxar uma chapa de oposição ao Governo em 2002.
Vejamos o cenário que provocou em Bezerra Coelho a sensação de estar sendo jogado em um lugar estreito e sem saída na sucessão de 2002: 1 – O prefeito se viu inquieto com a queda-livre que vem sofrendo o presidenciável do seu partido, o ex-ministro Ciro Gomes, cuja força ele apostava pudesse alavancar o seu projeto majoritário; 2 – Assistiu ao encolhimento do PPS no Estado (em dois meses perdeu o senador Carlos Wilson, hoje no PTB, o ex-prefeito de Caruaru João Lyra Neto e o deputado federal Pedro Eugênio, ambos no PT), sob a desculpa de que o partido migraria para o palanque do governador Jarbas Vasconcelos (PMDB), e cuja responsabilidade seria a ele atribuída.
Não deu outra. Ferveu o sangue que aquece o clã dos Coelhos e o prefeito de Petrolina jogou tudo para o alto. Trouxe a público um suposto compromisso da Executiva Nacional do PT, de defender o seu nome para a cabeça de chapa do palanque de oposição em 2002. Primeiro erro: O próprio Bezerra Coelho reconhece que acordo político não se revela. “Ou se cumpre ou não se cumpre”.
Ainda na investida contra o PT, veste-se de defensor do PPS e denuncia um suposto movimento dos petistas para isolar o partido. Não satisfeito, ainda enfrenta o então presidente regional do seu partido, Eduardo Carvalho. Com isso, força a intervenção de uma comissão para conduzir o processo de articulação política que tem, como um de seus integrantes, nada menos do que um de seus mais fiéis aliados, o deputado Ranilson Ramos (PPS).
“Fernando está fragilizado perante o PT, que é um aliado fundamental para a vitória das oposições. Era uma unanimidade no PPS e não é mais. E não está claro que ele levará o partido para Jarbas. Essa talvez seja a mais complicada de todas as saídas. Então, Fernando está fragilizado”, conclui, em reserva, um correligionário de Bezerra Coelho.
Quando insiste na defesa da unidade das oposições, o pós-comunista não está blefando. O jogo de Fernando Bezerra não é o da divisão das esquerdas. Desde que seja a unidade em torno do seu nome. Mas ele usou a tática errada, na tentativa de sair do isolamento que entendeu estava sendo vítima.
Fernando Bezerra Coelho nunca escondeu as suas pretensões de disputar o Governo do Estado. Mais do que um projeto, é quase uma obsessão do prefeito não ficar fadado a um político circunscrito ao terreno eleitoral do Sertão do São Francisco. E repetir a façanha do tio, Nilo Coelho (já falecido), de romper as fronteiras da região e se tornar governador de Pernambuco.
Tudo estava milimetricamente planejado por Bezerra Coelho. Quando aceitou o cargo de vice do ex-governador Miguel Arraes (PSB) nas eleições de 1998, tarefa que ele próprio elege como “sacrifício”, o prefeito já traçava o caminho da sua jornada rumo ao Palácio das Princesas. Mesmo que eleitoralmente o plano desse errado, e foi o que ocorreu, Bezerra Coelho entendia que o “sacrifício” lhe valeria o posto de herdeiro do espólio de Arraes no Estado.
Hoje, pode estar condenado a continuar no Sertão, com o desafio de suceder ele mesmo nas eleições municipais de 2004.