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ENTREVISTA/Fernando Bezerra Coelho
“É evidente que pagarei um preço pelo que falei”

O prefeito de Petrolina, Fernando Bezerra Coelho (PPS), praticamente delimitou os campos de atuação do PT e do PPS rumo às eleições de 2002. Poucos acreditam que as conversas que surgirão daqui para a frente coloquem os dois partidos em palanque único. Ao trazer em público um suposto acordo político não cumprido, Bezerra Coelho alimentou fissuras profundas na relação com um aliado importante, o PT, cuja força eleitoral ele mesmo reconhece. Por tabela, ainda rachou o seu próprio partido, perdendo a posição, antes unânime, de ser o nome do PPS na disputa para o Governo do Estado. Nessa entrevista ao JC, Bezerra Coelho reconhece que pode “pagar um preço” pelo que falou. Não desiste, no entanto, de investir na unidade das oposições para a sucessão do governador Jarbas Vasconcelos (PMDB). E reafirma a cobrança ao PT em retribuição à fidelidade, que garante ter empenhado ao partido, nos últimos doze anos.

JORNAL DO COMMERCIO – O senhor não deu um passo errado quando provocou fissuras em seu partido, dificultou a relação com um importante aliado, o PT, e alimentou mais dificuldades a já tão difícil unidade das esquerdas?

FERNANDO BEZERRA COELHOEu procurei dizer as coisas que achei que estavam erradas. Mas continuo achando que o caminho é a unidade. A minha primeira reação ocorreu em março, quando entendi que estava equivocada a tese levantada pelo PT de que os partidos, cada um, deveriam sustentar o seu palanque para reproduzir a eleição do Recife. Eu colocava que a tradição do Estado é a polarização das forças políticas. Quem tentou a terceira via quebrou a cara. O que eu fiquei chateado foi que, no final do prazo de filiação, houve uma atitude indevida do PT com relação ao PPS. Eu não me refiro às saídas de A, B e C. Mas às justificativas deixaram transparecer que havia um isolamento do PPS, ficou parecendo.

JC – Que justificativas o senhor se refere?

BEZERRA As de que o PPS poderia fazer uma aliança com Jarbas. É isso que eu considero uma coisa dura. Sobretudo em relação a mim, porque quando ninguém quis disputar a eleição de 98, porque era uma eleição dividida, eu coloquei o meu nome. Eu tinha uma eleição de deputado federal tranqüila. Tanto que o meu irmão (Clementino Coelho) se elegeu com os pés nas costas. Mas fui para o sacrifício. Então ninguém pode duvidar das minhas intenções. Esse tipo de argumento prosperou em função de omissões. E eu fui obrigado a revelar um assunto que é ruim. Acordo político não se revela. Ou se cumpre ou não se cumpre.

JC – Como se deu exatamente esse acordo? O PT selou o compromisso de apoiar a sua candidatura ao Governo do Estado em 2002?

BEZERRA Alguns estão querendo negar, então fica chato para mim. Eu só coloquei isso porque se construiu um quadro de eventual veto ao PPS. Eu disse a João Lyra e a Pedro Eugênio quando eles estiveram em minha casa para comunicar a ida para o PT. Eles argumentaram que não tinham certeza da aliança PT/PPS e que, pelo andar da carruagem, estava claro que PT e PSB estavam estruturando uma chapa. Eu disse que era precipitado eles afirmarem isso. Disse que Lula esteve em setembro, em Petrolina, e renovou o compromisso comigo. É evidente que com a eleição de João Paulo, cresceu no PT o desejo de disputar o Governo. Eu disse a Lula que não tinha nenhum problema. Mas que era preciso conversar se o candidato não fosse João Paulo, porque foi o fato novo da eleição. Então, eu converso com Lula, com o diretório em Petrolina, com João Paulo e não sinto vontade de isolar o PPS. Mas a gente vê fatos no sentido diferente. É óbvio que João Lyra e Pedro Eugênio quiseram sair. Mas era preciso esclarecer porque foram. Não levantar dúvidas em relação ao projeto do PPS. Eu disse a eles que, se o PT não desse espaço ao PPS, estaria claro o veto. E, assim, estaríamos livres para outra composição. Aí, eles saíram com a justificativa de que eu queria levar o PPS para Jarbas. Foi isso que achei chato.

JC – Aliás, o fantasma de o PPS migrar para o palanque do governador Jarbas Vasconcelos deve continuar rondando até que o cenário 2002 esteja definido...

BEZERRA Vamos falar de política com toda realidade. O grande projeto do PPS é a candidatura Ciro Gomes. Eu disse a Lula que nós temos que estar unidos em Pernambuco no primeiro turno. Essa estratégia de mais de um palanque é ruim. Sobretudo para ele, já que o PT acha que está com uma passagem assegurada para o segundo turno. Se não estivermos unidos no primeiro, em um eventual segundo turno, podemos enfrentar Lula. E aí vamos estar com outras forças. Eu não estou inventando. Se a gente quer garantir a vitória de um candidato de oposição, temos que impor a unidade no primeiro turno.

JC – Qual foi a resposta do presidente de honra do PT?

BEZERRA Lula sugeriu que, terminado o prazo de filiações, eu marcasse uma conversa com Ciro. Vamos conversar agora em outubro, porque continuo achando que, se Ciro vai para o segundo turno, e não há unidade aqui, o que vai ocorrer? Lógico que todas as forças governistas, que vão para a dissidência, apoiarão Ciro. As pessoas ficam excitadas com o fantasma de que o PPS pode ir para Jarbas. O fantasma que existe é Jarbas apoiar Ciro. Lógico, porque o candidato do Governo não está decolando. Se eles não quiserem levar em consideração é problema de quem está refletindo assim. Eu estou pregando a unidade. Vamos conversar de igual para igual, sem impor nada, porque se fosse para impor, eu poderia ficar afiado nesse compromisso de Lula. Não é dizendo ‘eu tenho a Prefeitura do Recife e a chapa é essa’. Não é assim, não é mesmo.

JC – Mas o senhor não optou pela estratégia mais equivocada para consertar essas coisas? Não dificultou ainda mais a unidade?

BEZERRA Espero que não. Nós apenas queremos reafirmar que, pelo projeto político nacional que temos, não vamos a reboque de nenhum partido político. Seja PT, PSB, quem for. Nós queremos fazer uma aliança de iguais.

JC – Aliança de iguais é o PPS na chapa?

BEZERRA É PPS na chapa, claro. As forças de oposição precisam estar juntas se quiserem sonhar com vitória. Falando em português claro: Se você pega as pesquisas para Governo do Estado, a vantagem de Jarbas é disparada. João Paulo sai um pouquinho melhor que Humberto. Se se quer ter uma grande frente, aproveitar o cenário nacional, que é francamente favorável para alavancar uma candidatura, pode-se ter uma chance. João Paulo é um exemplo. Mas agora é outra história. Estamos falando de um eleitorado com perfil urbano, mas no Estado todo.

JC – É só o PT que está de “salto alto” nessa discussão? O próprio PPS não coloca condições à unidade?

BEZERRA Concordo com você. Não é o caso de só colocar o PT no pelourinho. É evidente que o PPS pode ter cometido erros. O PSB também. Eduardo Campos tem adotado uma postura de palanque próprio, que tem criado ruídos à unidade. O problema é que o PT tem a responsabilidade maior porque tem a Prefeitura do Recife, que é o principal instrumento de fazer essa unidade ou não fazer. Estou querendo apontar aonde acho que as coisas foram feitas de forma equivocada. Porque desconheço, em Pernambuco, outra liderança de oposição que tenha ajudado tanto o PT quanto eu nos últimos doze anos. Carlos Wilson, com esse discurso de petista, não esteve no palanque de Lula nem em 94 nem em 98. Eu estive estive com Lula em 89, 94 e 98. Sobretudo em 98, em uma posição de sacrifício. E fiz uma aliança com o PT em Petrolina que, sem querer me vangloriar, não precisaria dar ao PT a vice. Então, posso até não estar na chapa (para 2002). O fato de ter falado o que eu falei, que deve ter desagradado muita gente, é evidente que vou pagar um preço. Mas quero conversar.

JC – O senhor entende que o seu projeto majoritário para 2002 está inviabilizado?

BEZERRA – Acho que por alguns não considerarem meu projeto, e aí me estranha muito, estão querendo formar essa história de palanques distintos. Esse projeto se colocou na perspectiva de uma unidade. E qual era a perspectiva lá trás? Que a gente não ia ganhar o Recife. Então, seria muito mais compreensiva a postulação. Seria, mais uma vez, uma atitude de sacrifício. Só voltei a falar com Lula, pessoalmente, em setembro desse ano e estive com Humberto em março, em Petrolina. Ele foi almoçar na minha casa e me falou que a ordem da Executiva Nacional era a de viabilizar as candidaturas próprias do PT, que seria bom reproduzir a estratégia do Recife. Foi o meu primeiro susto. Não vamos reproduzir Recife em nível estadual. Eu defendo a unidade, conversando. E fiquei aguardando sem saber se isso tinha sido colocado no esquecimento. Foi quando Lula foi a Petrolina e, analisando o quadro político, renovou o compromisso comigo. Ele ponderou que o quadro era distinto por causa da vitória de João Paulo. E eu disse que não teria nenhum problema. Admito até apoiar a candidatura petista, mas quero conversar. Quero saber o espaço que o PPS terá, o espaço de Ciro nesse palanque. Foi quando ele me pediu que marcasse uma conversa com Ciro....Aí fiquei tranqüilo.

JC – Mas como é que o senhor imagina a conciliação dos projetos políticos nacionais com os interesses locais?

BEZERRA Se eu disser que é fácil, estaria mentindo. Mas é melhor estarmos unidos no primeiro turno para não permitirmos que, no segundo, as outras forças terminem nos dividindo. Quem conhece o mapa eleitoral do Estado, vê que a estrutura partidária do Governo é muito forte. E é mais forte ainda porque Jarbas continua forte no Recife. Pode até mudar. Mas hoje, o eleitor está dizendo que vota em Lula e vota em Jarbas. Quando você vai para o interior, a vantagem é grande. O Governo quase que reinventou o negócio da sublegenda: tem palanque com o PMDB, com o PSDB... É inconseqüência achar que está tudo bem, que cada um faça o seu palanque. Se estivermos unidos, mesmo que as forças derrotadas no primeiro turno sejam atraídas para um ou para outro palanque, o importante é que, em Pernambuco, essa unidade se manteve. Então é difícil (a conciliação), mas é muito mais fácil do que separados. Separados, eu não tenho dúvida nenhuma: vamos estar em palanques diferentes.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.10.2001
Domingo