Agricultor filho de comunista que recebeu o nome do líder da Revolução Chinesa passou 14 anos sem registro e dez sem poder estudar, na época da repressão
por AYRTON MACIEL
Mao Tsé-tung não morreu. No pequeno município de Passira, no Agreste, a 90 Km do Recife, mais precisamente no Sítio Araras – que ao longo de 50 anos de subversão, ganhou a pecha popular de toca dos comunistas – o líder chinês ressurge na figura de um agricultor, 40 anos, filho de um camponês fundador do PCB e das Ligas Camponesas na região. Admirador do líder chinês, o pai deu ao terceiro dos filhos o nome MaoTsé Tung José Gomes dos Santos, o que custaria ao menino – a partir do Golpe Militar de 1964 – 14 anos sem identidade, obstáculo para se matricular na escola e um longo tempo fora da sala-de-aula. O medo dos pais de que o filho sofresse perseguição fez com que Mao só viesse a ter uma identidade aos 17 anos: passa a ser Marcos José dos Santos.
A mudança de nome não surte efeito no povo simples e iletrado do Sítio Araras, nem no município de Passira. Todos já sabiam que aquele não era Marcos. O menino de nome estranho e impronunciável, especialmente após 31 de Março, já era conhecido na comunidade como Maotizé, a corruptela de Mao Tsé-tung. O povo não sabia pronunciar e a forma incorreta acabou caindo bem: não comprometia quem sabia a origem do nome e não deixava constrangido quem não sabia falar o nome corretamente. Em 1964, quando o regime de exceção se instalou, policiais ocuparam o sítio, invadiram a casa, destruíram móveis, mas não encontraram o pai comunista. Com raiva, fizeram uma fogueira em frente à casa com os documentos do partido e o registro de nascimento de MaoTsé Tung.
Nascido MaoTsé Tung, a 16 de Março de 1961, filho dos camponeses José Gomes dos Santos e Benvinda Gomes dos Santos, Maotizé decidiu sair da toca, agora, para requerer o reconhecimento de anistiado político e a reparação econômica pelos danos. O agricultor do Sítio Araras ingressou com os pedidos com base na Medida Provisória nº 2.151, de 31 de maio último. O requerimento se baseia nos dez anos que ficou sem estudar e nos 14 no qual viveu sem um registro civil.
Sem existência legal, somente em 1º de Fevereiro de 1978 – com 17 anos – é que Maotizé voltou a ter um documento de identificação, registrado como Marcos José dos Santos. Foi também quando pôde estudar, regularmente matriculado, a partir do registro de nascimento. “Os militares destruíram os documentos e fiquei sem o registro. Com oito anos, chegou a época de estudar e minha mãe tentou me matricular numa escola particular, a São Luiz, em Passira, que era distrito de Limoeiro. Quando disse meu nome, a professora sugeriu logo que eu fosse matriculado com outro nome, mesmo sem o registro. Foi o que aconteceu.”
O garoto chegou a freqüentar as aulas por dois anos. Os colegas achavam estranho o nome mas era o único que tinha: Maotizé. Abandonou os estudos e ficou ajudando os pais e os irmãos no campo. Já rapaz, a mãe decide que ele precisa ter uma identidade e, apesar da relutância do pai, vai a Limoeiro com Maotizé e lá faz o registro com o nome de Marcos. “Só assim consegui me matricular numa escola municipal”, relata. Mas, não deixou de conviver com brincadeiras e provocações de quem conhecia o seu verdadeiro nome. “Comunista, um dia o pessoal vai te levar no lugar de teu pai”.
Em 1994, uma década depois da abertura política, o agricultor decidiu resgatar o nome de origem. O pai havia morrido em 1985, aos 78 anos, e a mãe em 1993, aos 68. “Sentia que o que minha mãe fez foi apulso, só para eu não ser perseguido nem sofrer represália. Eu dizia a ela que um dia ia ter meu nome de volta”, justifica. Beneficiado pela justiça gratuita, na condição de “pobre na forma da lei”, Maotizé ingressa com uma Ação Ordinária de Anulação de Registro Civil de Nascimento. A juíza substituta da comarca de Passira, agora município, Karla Fabíola Rafael Peixoto, depois do parecer favorável do promotor de Justiça Erik de Sousa Dantas Simões, e após Maotizé declarar que a anulação não lhe causaria “nenhum problema de identidade psicológica”, determina, em 30 de agosto, a anulação do registro de nascimento de Marcos José dos Santos. MaoTsé Tung resgata, finalmente, a sua identidade.