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MEMÓRIA
II
Sítio das Araras, a toca dos vermelhos
A ‘toca dos comunistas’ era um local conhecido das forças de repressão. O Sítio das Araras era um reduto famoso da subversão comunista no campo desde 1945. As reuniões do PCB ocorriam na casa do agricultor José Gomes dos Santos, líder camponês e comunista, local onde nasceu Maotsé Tung José Gomes dos Santos ou Maotizé. Os encontros chegaram a ter a presença de camaradas históricos, como Gregório Bezerra, e de outras lideranças, em algumas ocasiões. A casa era um núcleo comunista em meio a uma comunidade estimada de 80 famílias camponesas. Antes de 64, a polícia, vez em quando, ‘baixava’ por lá.
Maotizé revela que o seu tio, Cosme Gomes dos Santos, ainda vivo, com 94 anos, e morando no Recife, sofreu em 1945 – na mesma casa onde Maotsé Tung nasceu – a repressão da polícia do Governo do presidente Eurico Dutra. “Meu tio conta que a polícia invadiu a casa, e minha tia, que tinha acabado de sair de um parto, levou um susto e morreu. Ele só se lamenta de não ter podido se vingar. Tio Cosme e meu pai chegaram a sair a pé, daqui para o Recife, para colocar uma nota no jornal, acho que o Folha do Povo”.
A história se repetiu em 1964, após o Golpe de 31 de Março. A casa - a poucos metros do Rio Capibaribe, com seu leito estreito, mas com trechos profundos, o que dificultava a travessia – foi invadida pela força policial-militar. O pai José Gomes conseguiu fugir e passou meses escondido na mata da Pedra do Cavalo, de densa floresta e serras. “Com raiva, tocaram fogo nos documentos do partido e em meu registro de nascimento. Encostaram armas em minha mãe e ameaçaram meus irmãos”, conta.
Além do respeito à vontade do pai, que o fez resgatar o nome verdadeiro, Maotizé herdou a crença ideológica. Está ligado ao PPS, ex-PCB, e foi candidato a vereador – sem sucesso – em 1996. Maotsé Tung José foi o único a receber nome famoso. Os outros são Mautzelias, Francisco e Clóris. Na casa, Mao viveu com a mãe até 1991. Sobre o chinês Mao Tsé-tung, Maotizé afirma já ter lido em jornais: “Foi um grande líder chinês, que fez a Revolução Cultural. Queria a China com os costumes chineses, sem a interferência estrangeira. Acho que estava certo. Se cometeu algum erro, todo governo comete”.
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Jornal do Commercio
Recife - 21.10.2001 Domingo
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