A seca e a caatinga do semi-árido nordestino dão lugar a uma paisagem verde cheia de grutas e mistérios
por LUCIANA TEIXEIRA
Paisagens belíssimas, compostas por formações rochosas fascinantes, água cristalina, trilhas ecológicas, vegetação exuberante e fauna diversificada. Difícil acreditar que esse cenário faça parte de algum sertão nordestino. Mas todas essas características representam Xingó, localizado no município de Canindé do São Francisco, a 213 quilômetros da capital de Sergipe, Aracaju.
Resultado do represamento de parte do Rio São Francisco para a construção da Hidrelétrica de Xingó - a segunda maior do País – , as águas do Velho Chico proporcionam com o seu cânion e o lago de Xingó um espetáculo à parte, dificilmente encontrado em outro cenário brasileiro.
Depois de percorrer quilômetros de estrada até chegar ao município, a primeira sensação é de contraste: o semi-árido nordestino, onde a seca e a caatinga são presenças constantes, dá lugar a uma imensidão esverdeada em pleno sertão. As antes inavegáveis corredeiras agora são águas calmas que formam o Cânion do São Francisco, com seu lago navegável por 60 quilômetros.
Para navegar e admirar esse lago que une os Estados de Sergipe, Pernambuco, Alagoas e Bahia, é necessário pegar um catamarã ou uma lancha. Apreciar todas as imagens sem perder nenhum detalhe é uma tarefa difícil. As águas, que em alguns locais chegam a 190 metros de profundidade, são rodeadas por formações rochosas de mais de 60 milhões de anos de existência. Os paredões dos cânions chegam a atingir até 50 metros de altura, tornando-se abrigo para diversas espécies de animais.
Alguns rochedos ganharam um formato especial, o que levou a população ribeirinha a colocar nomes que remetem aos desenhos formados pela natureza. O mais famoso é a Pedra do Gavião, uma pedra com formato de cabeça de gavião que o vento esculpiu no local. A Pedra do Japonês, que se assemelha aos monumentos orientais, é outro ponto de destaque no passeio. O processo de climatização, em que as rochas se dilatam e depois são fragmentadas, formando belíssimas esculturas, pode ser visto ao longo do percurso.
Para quem quiser mergulhar nas águas esverdeadas e sentir a grandiosidade proporcionada pelo “mar do sertão” rodeado de arenito rochoso, a melhor opção é a Gruta do Talhado. Esse é um lugar deslumbrante, onde se pode chegar bem próximo desse paraíso natural.
Descendo o Rio São Francisco, também a bordo de um catamarã, o turista pode ver um cenário pouco diferente. O volume das águas é bem menor. As rochas não fazem parte apenas dos paredões e podem ser encontradas formando pequenas ilhas ao longo do passeio. Desta vez, cidades históricas compõem o roteiro.
A Gruta do Angico, local onde Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, e sua mulher, Maria Bonita, juntamente com nove companheiros, foram mortos, é um dos locais aonde os apaixonados pela história nordestina podem ir. Para aqueles que têm uma disposição a mais, a caminhada pela trilha do Vale dos Mestres é algo deslumbrante. E a partir do leito seco de um riacho, o visitante vivencia a fauna e a flora do Sertão sergipano.
Mesmo dono dessa paisagem exuberante, o Rio São Francisco não teve muito o que comemorar nos seus 500 anos, no último dia 4. A escassez de suas águas preocupa. Toda a imensidão de águas cristalinas, com rochas que parecem esculpidas à mão, está morrendo. Nos últimos cinco anos, o volume de água tem diminuído consideravelmente e toda essa bela natureza está ameaçada. Difícil é acreditar que essa beleza natural possa um dia chegar ao fim.
* A repórter viajou a convite da Empresa Sergipana de Turismo