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NORDESTE III
O oásis da uva e do vinho no sertão

Fazendas produtoras abrem as porteiras durante o 2º Festival da Uva e do Vinho de Pernambuco, em Lagoa Grande, no Vale do São Francisco

por EMANUEL ANDRADE
Especial para o JC

Após um passeio pela rota do vinho, em poucos minutos o visitante entende porque se fala tanto que o Sertão também possui um oásis. Os infinitos parreirais e a produção de vinhos finos nas vitivinícolas da região são um imperdível cartão-postal. Logo se apaga a imagem de que tudo é seco na geografia sertaneja. Nas fazendas, o verde contrasta com a aridez do solo. Aproveitando essa paisagem única, privilegiada, ocorre, de hoje até domingo, a 2ª Festa da Uva e do Vinho de Pernambuco.

O evento ocupará um megaparque, numa cidade cenográfica construída nas imediações do Ginásio Desportivo de Lagoa Grande, município vizinho de Petrolina, no Vale do Rio São Francisco. Durante os quatro dias do festival, pelo menos três fazendas de uvas e vinhos estarão de porteiras e portas abertas para receber turistas. O roteiro é mais do que agradável. Com a recente conclusão da Estrada da Uva e do Vinho a partir da rodovia BR-428, ficou melhor explorar os caminhos da cultura vinícola na região. A cada quilômetro, novas fazendas vão se revelando. Ao todo, são cerca de trinta, especializadas na produção da bebida.

Com infra-estrutura e tecnologia de ponta, se destacam as vitivinícolas Santa Maria, na fazenda do mesmo nome; Vale do São Francisco, com seda na Fazenda Milano; e Lagoa Grande, em atividade na Fazenda Garibaldina, que, juntas, devem produzir mais de 15 milhões de litros do produto em 2002. Com esse potencial, o Vale do São Francisco não deve ser apenas o território da fruticultura irrigada na próxima década. Poderá ser também o maior pólo vitivinícola do Nordeste. Não por acaso, é comum a presença, na região, de enólogos graduados em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, a convite de algumas empresas do setor.

Há dez anos no mercado, a Santa Maria, responsável pela marca Adega do Vale, produziu cinco milhões de litros do produto, além do vinagre também obtido a partir da uva. Sua bela sede funciona numa casa com um discreto charme italiano. As duas salas de visita expõem mobílias de madeira nobre em estilo colonial com mais de meio século. Trazidos da Itália, os móveis estavam numa outra fazenda do município de Floresta e foram transferidos para o então distrito de Lagoa Grande (independente há cinco anos), ainda na década de 70, devido à cheia da barragem de Itaparica.

Esse fato está relacionado ao começo da história do vinho na região do Vale do São Francisco. Com arquitetura moderna, mas com o amplo espaço de um casarão, para muitos a sede da fazenda Santa Maria é um verdadeiro oásis às margens do Rio São Francisco.

Em menos de cinco quilômetros de carro, pode-se chegar à Fazenda Garibaldina, onde fica a vitivinícola Lagoa Grande. A linha comercial da fazenda vai permitir engarrafar, no próximo ano, mais de dois milhões de vinho tinto chiraz e espumante - que todos chamam erroneamente de champanhe -, da marca Garziera. A sede da fazenda fica num prédio de dois andares com varanda panorâmica. Do alto, pode-se ver as folhas verdes contornando os parreirais de uvas viníferas (para vinho) e de mesa (para consumo).

No interior do prédio, um chafariz derrama água avermelhada, como se fosse uma fonte de vinho. O espaço será transformado, no próximo ano, num hotel-fazenda com 23 apartamentos e capacidade para 50 hóspedes.

Um pouco mais distante dali - a cerca de 20 quilômetros - está a pioneira Fazenda Milano, com uma área de 300 hectares, onde brotam os frutos que se convertem nos melhores vinhos da região. São marcas, inclusive, que aportam nas prateleiras do mercado externo - a exemplo do Cabernet Sauvignon e Branco Moscato.

ILHA DO PONTAL - As trilhas demarcadas pelos parreirais levam o visitante também a pequenas fazendas da região: Minuano, Riacho do Recreio, Frutone, Sereníssima e Porto do Sol. O estande oficial da festa vai divulgar diariamente os horários de ônibus com destino às principais fazendas do município.

E para aliviar o calor escaldante do Sertão, após a maratona da rota da Uva e do Vinho, nada melhor que dar uma volta de barco ou lancha até a Ilha do Pontal. Para isso, é preciso ir até o distrito de Vermelhos, de onde o acesso para o arquipélago é mais seguro.

Num cais improvisado, vários barcos vão estar de prontidão para cumprir a travessia por R$ 1 (ida e volta). A ilha é povoada por 160 famílias de agricultores que desenvolvem culturas de uva, manga, coco e goiaba.

Quem tiver acesso à pacata comunidade de Vermelhos não pode deixar de provar os pratos típicos locais. O cardápio é conhecido do lugar: galinha de capoeira cozida ou à cabidela, bode a gosto do cliente e peixe frito pescado há poucas horas. O acompanhamento, claro, é um bom vinho. Do lado de fora, na calçada, a cadeira de balanço aguarda os visitantes para alguns minutos de descanso.

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Jornal do Commercio
Recife - 18.10.2001
Quinta-feira