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ARTIGO

O segredo do velho homem

por FÁTIMA QUINTAS

O bule de café permanecia no mesmo lugar, ao canto direito da mesa alongada em retângulo. O velho homem dormia mal e comia pouco, mas o café lhe sabia como o sagrado vinho tinto da região do Dão. Morava com um neto e seguia à risca hábitos quase seculares. Rosicleide limpava a casa, lavava a roupa, engomava-a, e cuidava, com esmero, do cardápio das austeras refeições, quer em dieta, quer em horário. Diariamente, dosava o café na medida certa. Nada parecia tão essencial ao velho homem quanto a degustação do simples café. Bebia-o com êxtase carnal. A consciência da finitude lhe trazia amarguras jamais demonstradas na convivência cotidiana. Dele não se poderia traçar um epíteto dionisíaco nem tampouco apolíneo. Aprendera com o tempo, o último aliado da vida, a dedicar honras solenes ao destino, seguramente apocalíptico. Restava-lhe apenas a miragem de um ambiente sem cor. E serenamente, sem explosões exageradas ou posturas deprimidas, encarava a passagem dos dias. Falava pouco. Gostava, todavia, de ouvir Rosicleide. Ela lhe trazia o jornal e o mantinha em contato com o mundo. Ao transmitir-lhe os mexericos da vizinhança, adoçava a dureza de uma atmosfera cristalizada na saudade. Sentia-se feliz com a sua quota de vividez. Por incrível que pareça, o velho homem não evocava o passado. Resignava-se com o insípido presente. O futuro o atemorizava. Sobejava-lhe o consolo do instante, do imediatamente já, do antes do adeus.

Na mesa, o bule de café, a xícara vazia, o pires a asilar a pequena colher. A toalha enxovalhada. Aos domingos, o queijo de coalho assado exalava o cheiro de uma fritura saborosa. A estreita cozinha acumulava o calor de um sol poente e de um fogão aceso parcimoniosamente. Não sofria com as altas temperaturas, o velho homem. As forças lhe faltavam naquela imensa casa, com quartos vazios, salas abandonadas, terraço entregue à ventania das estações invernosas. Entre o deambular por um chão gasto e o remexer em gavetas bolorentas, o gole de café representava o desejo último. O sôfrego desejo de quem já não quer mais contar a sua história. Enquanto ela existir, entretanto, o homem também existirá.

Rosicleide perguntava, ele não respondia. Dentro de si a argamassa de lembranças acomodava-se como imensas pilhas de papel sem uso. Havia densos porões recolhidos em ilhas isoladas. Humildes enseadas, portos gingantescos, arquipélagos comuns. Único tesouro do velho homem. A sua mais valia. A posse de uma história inenarrável.

Rosicleide tagarelava num à vontade de todo expressivo. Não media o charme de apimentar com malícia o enredo de uma boa notícia. Risada gostosa, encaixava os assuntos, uns sobre os outros, através de um fio condutor desconectado. O élan vital de uma mulher, generosa e francamente sábia, destacava-se. O que mais poderia ela doar ao velho homem senão o reluzir da sua juventude?

Os chinelos se arrastavam no vácuo dos aposentos. O neto nunca chegava, o velho consumia a existência entre as grossas paredes da soturna casa. Sentava-se. Levantava-se. Fitava os retratos pendurados na sala, olhava os objetos antigos, passeava em um mundo congelado, o seu, em silêncio. Voltava à cozinha e, postado diante da mesa, segurava o bule, inclinava-o, escoando o líquido preto do café sobre a xícara inerte como se aquele ato refletisse a reprise fidedigna dos anos vividos. Bebia vagarosamente, a fumaça rodopiando imagens difusas, uma aliança tácita de prazer. Gole a gole, repetia o gesto num apego orgânico ao derradeiro hedonismo.

O bule no mesmo lugar, a xícara, o pires, o café. Rosicleide acabara de ajeitar a mesa. Esperaria o primeiro olhar do velho homem e narraria as manchetes do jornal. A vida começava naquela manhã ou terminava candidamente nas pegadas que já não se faziam ouvir. Fechou a porta tomada de desânimo. O trinco cerrava a história que ela nunca ouvira.

Fátima Quintas é escritora e-mail: quintas@fundaj.gov.br

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Jornal do Commercio
Recife - 21.11.2001
Quarta-feira