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A crise da moradia
O fechamento do Banco
Nacional de Habitação (BNH), em 1986, no primeiro
governo civil após a ditadura militar, teve diferentes
justificativas. Dizia-se, na época, que além de onerar
o Orçamento Federal, seus programas de financiamento
para residências não estavam beneficiando as
populações carentes, tanto que depois de sua
implantação, durante o governo militar, havia
aumentado, em vez de diminuir, o déficit habitacional,
no Brasil.
Tudo isso é certo, mas o fato é que a extinção
daquela entidade teve efeito imediato na redução da
oferta de imóveis, seja para a classe média ou para as
populações de baixa renda. Em Pernambuco, por exemplo,
entre 1965 e 1978, haviam sido erguidas 63.655
habitações, mais de 4.500 por ano. Nem todas obedecendo
a um planejamento adequado, é certo, ou situadas em
locais convenientes, criando imensos bairros populares,
mas resolvendo um dos problemas básicos de inúmeras
famílias. Esses quantitativos não mais foram atingidos
em nosso Estado, desde então.
Em 2000, foi extinta a Cohab-PE, entidade governamental
executora dos programas de habitação nos municípios
pernambucanos, depois substituída pela Empresa de
Melhoramentos Habitacionais de Pernambuco. E o Ipsep
com uma larga experiência na construção de
imóveis destinados aos funcionários públicos ,
passou por tantas transformações que, hoje, não consta
em suas atribuições investir em residências.
Com base nos debates pré-eleitorais, esperou-se um
impulso no setor habitacional para as camadas pobres,
depois da eleição de 2000 para a Prefeitura do Recife.
Mas o prefeito João Paulo já anunciou que o Programa
Habitacional preparado por sua equipe de planejamento
não deverá sair do papel este ano. Até a crise
energética foi apresentada como argumento, porque
provocou cortes na arrecadação.
Atualmente, apenas o Programa de Arrendamento Residencial
(PAR) vem abrindo algumas possibilidades para o acesso à
casa própria. Criado em 1999, com âmbito nacional,
através dele foram financiadas 47 mil casas no País,
mas no início beneficiou apenas as regiões
metropolitanas. A parte do leão, como se
dizia no tempo das fábulas (em que o chamado rei dos
animais obtinha sempre os melhores lugares) ficou
certamente com São Paulo e Rio de Janeiro. E nem sempre
o dinheiro beneficiou diretamente o usuário. No Recife,
por exemplo, o PAR possibilitou a compra, pela Caixa
Econômica Federal, do velho Edifício JK, antiga sede da
Sudene, depois ocupado pelo INPS, no bairro de Santo
Antônio, centro da cidade. Como fora construído para
hotel, apesar de não dispor de espaço de estacionamento
de veículos, presume-se que possa ser adaptado para
receber moradores, desde que esses se disponham a pagar
mensalmente cerca de R$ 140,00 reais, durante um período
de 15 anos. No momento, estão apenas iniciadas as obras
de restauração do imóvel, com a aplicação de R$ 5
milhões pela Caixa.
Como as mensagens publicitárias dos governos são sempre
otimistas, os marqueteiros tentam convencer a população
de que os primeiros resultados do PAR são altamente
positivos. Daí, haver o presidente FHC anunciado a
ampliação do novo programa habitacional para mais 105
cidades brasileiras, entre elas Caruaru, em Pernambuco.
Para isso, pretende utilizar R$ 2 bilhões no
financiamento de mais 100 mil novas moradias.
Do lado das construtoras, a conversa é menos animada. O
presidente da Associação das Empresas do Mercado
Imobiliário (Ademi), Armênio Ferreira, tornou público
que o teto de R$ 20 mil para a construção de uma
habitação, fixado pelo PAR, deixa uma margem de
lucro de apenas R$ 1 mil para as empresas por ele
lideradas. Enquanto isso, fala-se num déficit atual de
habitação em torno de 5,6 milhões de unidades. Ora, a
ampliação do novo programa federal prevê a
construção de apenas 100 mil novas casas.
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Jornal do Commercio
Recife - 21.11.2001
Quarta-Feira
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