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COMPORTAMENTO
Um quilombo, uma família

Em Conceição das Crioulas, uma família de 4,7 mil pessoas, o direito à terra é lei. Mas ela ainda não chegou aos seus quintais

por BRUNO ALBERTIM E FABIANA MORAES

Com apenas dois anos de idade, Carlos senta-se à beira do açude que desafia a violência do sol em Conceição da Crioulas, um povoado separado por 60 quilômetros de estradas, pedregosas e empoeiradas, do centro de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco. São caminhos cruzados por artérias de barro que, no auge do tráfico, há dois anos, serviam diariamente para o escoamento da erva que incluiu o nome dessa comunidade no chamado Polígono da Maconha. Tão íntimo do solo que brincando escava com as mãos, ele parece conhecer o sentido que a terra confere à grande família que é seu povo. Ali, área de negros remanescentes de quilombos reconhecida há apenas um ano pelo Governo Federal, o solo não é só o elemento que permite a agricultura e a subsistência. Como um ancestral forte e onipresente, a terra é considerada fonte de sentido e identidade na vida. “Nunca me imaginei filho de outro canto. Aqui, a terra é nossa grande mãe. É o que nos situa dentro da História: negros, herdeiros de antigas escravas, filhos dos quilombos. Por isso, em casa, ensinamos as crianças a respeitar e amar essa terra e a lutar por ela”, diz o pai de Carlos, Andrelino Antônio Mendes, 49 anos, quatro filhos, um negro de fala calma que se tornou um dos líderes locais da luta pela reconquista dessa terra.

O pequeno menino negro, de traços fortes, deve crescer sob o paradoxo de Conceição das Crioulas. Embora sejam as primeiras famílias negras na História do Brasil a ter o reconhecimento legal do direito à terra, esses quilombolas ainda não a tem de fato. Cerca de dois terços dos terrenos estão sob a posse de fazendeiros que chegaram ao lugar. Lá, isso é coisa que se aprende em casa. Entre galinhas, porcos e bodes que alimenta e que lhe servem de alimento diário, Maria Emília do Espírito Santo, a Dona Liosa, 64, repassa aos netos, “tantos que não dá para contar nem na hora de dormir”, a história que o lugar em que ela nasceu lhes reservou.

“As crioulas chegaram aqui, venderam algodão e conseguiram arrendar essa terra do antigo rei. Minha avó me ensinou isso. Com o tempo, foram aparecendo cercas, a gente vive hoje que nem gado. Eles vão ver que a escravidão na nossa família não acabou”, conta ela, que, com um fiador nas mãos, enche os olhos d`água quando diz que a gleba em que sua avó viveu é hoje de posseiros. “Me dói não poder voltar àquele sítio.”

Como uma avó coletiva, Dona Liosa exerce um papel social reservado sobretudo aos anciãos de Conceição. São eles que ensinam aos mais novos que, com a dissolução do Quilombo de Palmares, em 1695, seis negras se instalaram no lugar e, vendendo na cidade de Flores o algodão que teciam, fizeram surgir aquele povo nas terras arrendadas. Foi em seus relatos e no de outros idosos que a Fundação Palmares, órgão do Ministério da Cultura então responsável pela titulação de áreas quilombolas, reconheceu Conceição como área histórica.

Carlos, de certa forma, também é neto de Liosa. Em Conceição, o povo negro e cafuzo, fruto da mistura com os índios Aticun do lugar, se considera todo uma grande família. Todos sabem que são descendentes diretos das seis negras que lá chegaram de Palmares e deram início aos cruzamentos de uma grande trama familiar. Hoje, são 4,7 mil moradores.

“Foi de Conceição, é tudo parente”, diz Fabiana Mendes, 22, irmã de Carlos, filha de Andrelino, sobrinha de Liosa, de Joaninha, de Dina, de muitas outras e outros, além de “prima de todos”, uma jovem que trocou a comunidade por Recife, onde faz graduação em História e, não por acaso, é bolsista de pesquisas sobre as comunidades afrodescendentes de Pernambuco. Quando seu pai caminha pela rua, precisa a toda hora atender os jovens que lhe pedem a benção. Ela também faz o gesto quando encontra pessoas da idade do pai.

Antes de 1997, eram apenas nove televisões comunitárias espalhadas pelos 42 sítios dispersos de Conceição, um lugar onde, ainda hoje, o aparelho não evita que as crianças se aglomerem sobre os túmulos do cemitério local para vibrar, nessas arquibancadas improvisadas, com o futebol feminino dos fins-de-semana. Antes de o aparelho entrar nas casas, no entanto, uma cena era mais freqüente na praça onde a vida social se desenrola. Ao redor de figuras como Dona Liosa, as novas gerações se reuniam para ouvir ‘causos’ e a história da grande família das Crioulas. Entre uma novela e outra, no entanto, a família de Conceição mantém na afirmação da identidade um assunto corriqueiro.

“Quando vou com minha família às roças, oramos todos para agradecer à terra. Não só o que ela nos dá para o sustento, mas pela própria vida. Se eu não estivesse em Conceição, estaria perdido, sem identidades, sem noção de descendência. Estaria na favela como tantos negros do Brasil, parte de uma massa excluída da própria história. Graças a Deus e a meus ancestrais, estou aqui”, diz João Alfredo de Souza, seis filhas, três filhos, dois netos, 49 anos como chefe de um dos vários núcleos da grande família quilombola de Conceição.

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Jornal do Commercio
Recife - 18.11.2001
Domingo