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COMPORTAMENTO II
Aqui, índio não casa com negro

Com a aposta na ‘pureza’ da raça para assegurar a propriedade, índios da tribo Aticum condenam casamento de membros da comunidade com os quilombolas

Depois do reconhecimento como área quilombola, Conceição das Crioulas deve sofrer mudanças sexuais que determinarão um novo processo em sua história de miscigenação. Casamentos entre negros e índios, que deram origem a várias gerações inter-raciais, devem ser suspensos. Isso porque indígenas da tribo Aticum, vizinha a Conceição, e moradores do Sítio Rodeador, no segundo distrito da comunidade, querem que esse trecho seja excluído das áreas negras demarcadas. Para isso, seguem uma orientação que, embora política, começa na cama: devem casar apenas com membros da própria aldeia. “Aqui, negro só casa com índio se for à custa de feitiço”, diz a índia Maria de Fátima da Conceição, 39 anos. Mais uma vez, a terra determina a configuração e a identidade das famílias nesse canto do Sertão pernambucano.

“Todos os índios foram orientados a não mais casar com negros. Devem seguir a tradição de unirem-se a tios e primos da própria etnia”, diz Maria Irene Eruça de Jesus Sá, 47, conhecida como Bebé, uma cabocla ‘espiritista’, que diz promover curas por meio da incorporação de espíritos no Rodeador, onde vive. Diante do altar em sua sala, ela incorporou a entidade conhecida como Janaína para conversar com a reportagem do Jornal do Commercio.

Durante a conversa, o ‘espírito’ garantiu que não havia sangue negro nas veias dos índios locais e moradores do segundo distrito de Conceição. “Essa terra vai voltar para os índios e ninguém poderá impedir”, disse a entidade, num discurso cujo tom é o mesmo da mulher que lhe empresta o corpo. “Gente da Funai já nos disse que é melhor não nos misturamos com negros, pois atrapalharia a identificação da área como indígena”, diz Bebé, após ‘desencarnar’ Janaína.

Comuns no passado, raras são as cenas de negros e índios dançando juntos o toré, a coreografia ritualística aprendida pelos primeiros com os indígenas. “Tinha muito antes, era uma festa”, atesta Dona Liosa, 64. As letras das cantigas também mudaram. “Você diz que eu sou quilombo, eu não sou quilombo, não”, diz um dos novos cânticos entoados na roda.

Apesar de nitidamente mestiços, com a presença numa mesma casa de netos que variam do cabelo inegavelmente crespo a um liso típico indígena, os quilombolas de Conceição também vivem um momento de radicalidade na afirmação da negritude. Um dos orgulhos de Maria Aparecida Mendes Silva, a Lia, 30, é dizer que, em Conceição das Crioulas, está acabando o número de “moreninhos”.

Não que a pele dos moradores esteja escurecendo. O que ela verifica é um número maior de jovens sem vergonha da condição negra. “Estupraram nossas mentes e nossa auto-estima. Então, todos negavam a negritude por meio de uma ideologia embranquecedora, como se considerar moreno”, diz ela, uma negra que há cinco anos era semi-alfabetizada e hoje surpreende pela articulação das idéias. Em sua vida, ocorreu o que ela chama de “revolução silenciosa”: a educação. Nas duas escolas de Conceição, uma pendenga tão forte quanto a que as famílias aprendem a travar pela terra se desenrola: a luta pela recuperação do orgulho. Ana Cláudia Mendes Silva, 11, filha de Lia, precisou se impor diante do racismo na própria sala de aula. “A professora disse que negro era coisa ruim. Eu respondi que era negra e ela me disse que eu não poderia ser ‘isso’, porque sou bonita”, conta. Sua mãe não se limitou a ouvir o episódio. “Fui conversar com essa professora e ela ainda disse que esse negócio de negro é uma coisa que os pais inventam para enlouquecer as crianças”, diz.

Os professores acreditam que hoje, diante do analfabetismo que atinge 68% da população de Conceição das Crioulas, eles têm a responsabilidade de dividir com os velhos a manutenção de sua história. Lurdinha da Silva, 34, é uma dentre eles. “A escola deve fazer o que durante muito tempo foi feito apenas pela tradição oral”, diz ela. No próximo dia 20, aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, docentes e alunos estarão diante da capela de Conceição, em praça pública, discutindo seus papéis na História para marcar a data. “Nossa história deve ser passada na escola como conteúdo pedagógico obrigatório”, defende o agricultor João Alfredo de Souza, numa mostra de como as questões escolares mobilizam não apenas profissionais da educação mas também a própria comunidade das Crioulas. Afinal, nos colégios estão matriculados alunos vindos de uma mesma história e família. Lia, hoje na direção do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Salgueiro, lamenta que a educação ainda esteja dissociada da realidade local. “Nossa educação é feita para quem vive na cidade” diz ela, lamentando que os negros tenham se alienado de uma sabedoria que o Quilombo dos Palmares cultivou. Enquanto, à época, o Brasil se restringia à cana-de-açúcar, Palmares se notabilizou por desenvolver culturas variadas, garantindo independência agrária. “Minha avó ainda nos ensina a plantar sempre as mesmas coisas nos mesmos pedaços de terra, o que cansa o solo.”(B.A.)

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Jornal do Commercio
Recife - 18.11.2001
Domingo