LG_jc.gif (3670 bytes)

COMPORTAMENTO III
Ventre cheio paga as dívidas

Sem terra para plantar ou empregos urbanos, jovens remanescentes quilombolas engravidam com o objetivo de receber bolsas de auxílio do Governo Federal

No meio da miséria em que planejamento familiar é língua estranha para a maioria dos remanescentes quilombolas de Conceição, recém-nascido serve para levantar casa, pagar conta de luz atrasada, comprar aparelhos de som, televisão e até antenas parabólicas. Sem alternativa de trabalho, a bolsa–maternidade no valor de R$ 700, repassada pelo Governo Federal numa única parcela às grávidas que se alistam no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Salgueiro, vira uma estratégica fonte de renda. “Quando esse menino nascer, vou pagar R$ 200 de prestação de uma casa e, depois, ligo as trompas”, diz, meio sem jeito, Maria do Socorro Leal da Silva, 21 anos, aos seis meses de sua terceira gravidez. O segundo de seus dois primeiros filhos trouxe o dinheiro que possibilitou o pagamento de contas atrasadas na mercearia e novas aquisições em alimentos e vestuário. “Meu marido é agricultor, mas não tem terra. Ele ganha uns R$ 5 por semana, trabalhando na roça dos outros. Precisamos comer.” Mais do que em outros lugares, líder religioso, ali, é conselheiro de família. “Um morador, uma vez, me pediu para lhe vender fiado uma televisão usada, porque pretendia ter um filho e assim poderia pagar. Acabei dando o aparelho a ele. Tento, às vezes em vão, explicar que não se pode ter filhos para conseguir dinheiro”, conta Manoel do Nascimento Silva, 43, o primeiro e único pastor evangélico da comunidade. “É preciso programas de capacitação para essas mães receberem o dinheiro”, defende Lia, do Sindicato de Agricultores.

Em meio à pobreza, tanto o nascimento quanto a velhice são molas de sustento. Além da bolsa-maternidade, a aposentadoria dos idosos, pouca porém constante, sustenta casas onde a palavra contracepção sequer foi ouvida. “Dou de comer a oito filhos e mais de 20 netos, não sei nem contar quantos”, diz Júlia Francisca de Oliveira, 70, também mestra na arte do caroá. “O artesanato nem sempre é vendido.” Outro trabalhador, que prefere não identificar a si ou à mulher – “Os homens podem não querer botar ela mais na bolsa (sic)”, justifica – diz que não precisa se preocupar com as necessidades que o recém-nascido terá. “Ele só toma leite do peito”, raciocina o homem, que deve usar a próxima bolsa de sua esposa para comprar uma antena: “Não adianta uma televisão que não pega direito”.(B.A.)

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 18.11.2001
Domingo