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COMPORTAMENTO IV
“Coronel era dono, negro era colono”

O apadrinhamento teria sido um dos principais fatores que fizeram as roças da comunidade de Conceição das Crioulas passarem do domínio das famílias negras para as mãos de fazendeiros e posseiros brancos. “Muitos chegavam, tornavam-se amigos e logo eram padrinhos de filhos de negros. Depois, cercavam as roças, dizendo estar fazendo um favor, para que os negros pudessem trabalhar melhor, iam ao cartório, registravam a terra e expulsavam eles”, conta João de Oliveira Filho, um estudante de segundo grau de apenas 22 anos.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) reconhece o problema na comunidade quilombola, mas ainda não tem sequer um censo sobre as terras que devem ser reintegradas.

“Na próxima semana, teremos reuniões com o Governo do Estado e representantes quilombolas para dar início ao estudo das benfeitoras para que possa haver indenizações e restituição de posse aos negros”, diz Roberto Rodrigues, superintendente (substituto) do Incra em Pernambuco. “Mas não temos ainda cronogramas”, diz. Ele foi designado pelo Governo Federal, há duas semanas, quando o Incra assumiu a co-responsabilidade pela titulação de áreas quilombolas com a Fundação Palmares, para responder pelo Programa de Ações Afirmativas, que inclui questões relativas a gênero, raça e etnia.

Além de não acreditar na versão histórica que beneficia os negros de Conceição, fazendeiros e posseiros não pretendem abrir mão da terra com facilidade. “O Governo Federal irresponsavelmente afirma que a terra é dos quilombolas, mas não procura os fazendeiros para indenizá-los. Isso só tem gerado atritos entres brancos e negros”, diz Francisco de Assis Parente de Alencar, o Chicola, em seu segundo mandato como vereador pelo PMDB, dono de uma propriedade de 688 hectares dentro da comunidade. “Deixei de produzir meus 15 mil quilos de pescado por ano porque os negros roubavam os peixes. Já levei metade dos meus 400 caprinos para outra fazenda”, diz ele, que, semana passada, foi até a Delegacia de Salgueiro reclamar sobre 50 metros de cerca destruídos. “Só podem ter sido eles. Quando comprei a terra, há 30 anos, não tinha essa história de quilombo. A terra sempre foi de coronéis e os negros viviam como colonos.”

Além de Conceição das Crioulas, apenas Castainho, em Garanhuns, teve a titulação concedida no Estado. Isso em março deste ano. “Quarenta hectares, porém, ainda estão nas mãos de posseiros”, diz José Carlos da Silva, 43, líder local. No resto do Estado, 35 comunidades, segundo dados do próprio Incra, ainda abrigam 36 mil pessoas à espera do reconhecimento de sua condição étnica. (B.A.)

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Jornal do Commercio
Recife - 18.11.2001
Domingo