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COMPORTAMENTO V
Homem traía, mulher mandava

Nos antigos quilombos, eram reproduzidas as mesmas práticas sociais africanas: os homens podiam ter mais de uma mulher, mas elas ditavam as regras

por FABIANA MORAES

A curiosidade em torno dos antigos quilombos ganhou contornos mais definidos após a divulgação de uma notícia mundana, que, diga-se de passagem, em nada lembrava as verdadeiras questões pelas quais esses locais eram conhecidos: a suposta homossexualidade de Zumbi dos Palmares. A declaração, feita em 1995, partiu do antropólogo e militante do Movimento Gay da Bahia Luiz Mott, que foi enxovalhado pelas organizações voltadas aos negros no Brasil e festejado pelos próprios gays. Verdadeira ou não, essa questão lançou luzes sobre o tipo de sociedade e de relações humanas que ocorriam nos quilombos. Afinal, quem eram esses negros e quais os códigos sociais que eram seguidos nessas comunidades?

Um documento (de 1689) escrito pelo latifundiário do período colonial, Manuel de Inojosa, mostra alguns costumes do maior quilombo que o Brasil abrigou, o Quilombo dos Palmares, em Alagoas (na época, Pernambuco). No seus escritos enviados ao rei, Inojosa mostra-se assombrado especialmente com o mocambo do Macaco (Palmares era formado por várias comunidades), onde a prática da poliandria (uma mulher para vários homens) era comum. Era o Macaco, no entanto, o local escolhido por Ganga Zumba – primeiro governante do local e tio de Zumbi, assassinado pelo próprio – para comandar toda a população quilombola. Zumba era o rei, mas as mulheres possuíam um grande domínio sobre a comunidade. Cada novo refugiado que chegava a Palmares precisava se dirigir até uma casa comandada por uma mulher para que ela distribuísse suas funções e seu quinhão de terra. “Todos os maridos se reconhecem obedientes à mulher, que tudo ordena, assim na vida como no trabalho”, relata Inojosa. Segundo o antropólogo e coordenador do Grupo de Pesquisa Sobre Populações Afro-brasileiras do departamento de Antropologia da UFPE, Tito Figueirôa, as etnias que viviam nos antigos quilombos reproduziam os mesmos costumes que eram praticados na sua África natal (principalmente Angola, Congo e Moçambique, de onde vieram os primeiros negros escravos). “Essas práticas, no entanto, foram sendo mudadas de acordo com as relações entre os povoados mais próximos e os quilombos. Hoje, as comunidades remanescentes possuem os mesmos costumes que os grupos rurais do seu entorno”, diz Figueirôa.

A ‘comuna’ liderada por Zumbi também chamou a atenção do latifundiário, que relatou a divisão de terra e os frutos em suas cartas enviadas a corte: “Entre eles tudo é de todos e nada é de ninguém. A terra e seus frutos são divididos por todos”. Nesse período, os frutos do quilombo eram milho, feijão, cana-de-açúcar, mandioca e banana. Os refugiados se relacionavam com grupos próximos aos mocambos, e chegavam até a comercializar seus produtos com eles. Hoje, curiosamente, alguns remanescentes preferem não entrar em contato com ‘os brancos’, como diz o antropólogo Tito Figueirôa. “No Serrote do Gado Brabo, perto de São Bento do Una, os habitantes só se casam entre si e não gostam que estranhos entrem na comunidade. No quilombo Rio Trombeta, no Amazonas, eles evitam se comunicar com os brancos. Têm medo de virar escravos de novo.”

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Jornal do Commercio
Recife - 18.11.2001
Domingo