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COMPORTAMENTO VI
Partos unem sabedoria e realismo fantástico

A maternidade mais próxima está a duas horas pela estrada. Consideradas mães de todos, parteiras permitem os nascimentos e ainda protegem seus ‘filhos’ dos espíritos ruins que, dizem, rondam as Crioulas

Para nascer na assepsia de uma maternidade, as crianças de Conceição das Crioulas precisariam ter hora marcada para romper o ventre de suas mães. Sem ônibus na porta que faça o trajeto de quase duas até o centro de Salgueiro, os quilombolas precisam se deslocar, antes do sol, até a vila central da comunidade, de onde, apenas às 4h30 da madrugada, sai o caminhão pau-de-arara que atravessa o barro rumo ao centro urbano mais próximo. Isoladas, é na sabedoria e na disposição de velhas pretas que essas mães encontram suporte para dar seus filhos à luz. Como nos antigos quilombos, nas Crioulas o nascimento é possível graças a dedicação das parteiras.

Numa estrutura que lembra antigas tribos africanas, essas mulheres são consideradas quase tão mães quanto as próprias que carregam os fetos na barriga. “Quem nasceu pelas minhas mãos me chama de mãe, quem não nasceu, mas é irmão de um parto que eu fiz, sempre me chama de tia”, diz Joana Joventina, a Dona Joaninha, que passou 30 dos seus 51 anos trazendo mais de 200 crianças à vida. “Tenho o nome de todos anotados. Eu que levo ao cartório para fazer o registro”, diz a mulher que, como outras matriarcas de Conceição, também cuida da saúde espiritual da comunidade. Rezadeira, ela incorpora espíritos de velhos caboclos para curar e ‘despachar’ entidades espirituais que perturbam a alma de seus ‘filhos’. “Tem muita alma ‘bestando’ por essa Conceição. Aí, se aproveitam dos mais fracos e entram no corpo deles. Às vezes, dá muito trabalhar para tirar”, conta, lembrando que já passou mais de um ano para desencorporar um exu de um jovem. Católica assumida, em suas casas repousam imagens de santos e caboclos-índios. “É um catolicismo típico de comunidades quilombolas”, observa o antropólogo Bartolomeu Tito Figueirôa.

No meio desse realismo fantástico do Sertão, Conceição recebeu, ano passado, sua primeira igreja pentecostal, hoje com 70 fiéis. Após 19 anos em São Paulo, Manoel do Nascimento Silva, 43, voltou a sua terra com a missão de salvar seu povo para Cristo. “Respeito outros costumes, mas a bíblia é clara quanto a incorporação de espíritos”, diz ele que, orgulhoso, contabiliza ter salvo oito homens que, antes, sem alternativa econômica, conduziam os próprios filhos para trabalhar nas roças de maconha de traficantes locais. (B.A.)

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Jornal do Commercio
Recife - 18.11.2001
Domingo