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NOVIDADE
Corações em potência máxima

Pesquisa diz que só atletas de tênis, judô e vôlei de praia têm alta potência cardíaca, notícia que vai fazer muita gente rever os exercícios continuados

por MARCIA CEZIMBRA E ANTONIO MARINHO
Agência Globo

Que o maratonista tem um excelente condicionamento cardíaco todo mundo sabe. Mas o motor desse coração não tem uma boa arrancada, ou seja, uma aceleração de alta velocidade. Essa característica só é encontrada em atletas que praticam judô, tênis, vôlei de praia, esgrima ou futsal, modalidades intermitentes, do tipo pára-e-vai, em impulsos de esforço instável e muito intenso, bem distintos dos movimentos constantes da corrida ou da natação de longas distâncias. Essa é a descoberta da pesquisa de duas décadas feita com três mil pessoas sob coordenação do cardiologista Claudio Gil Araújo, especialista em Medicina do Exercício.

A vantagem de um coração de potência máxima é a oxigenação mais rápida do corpo e um menor risco de arritmias cardíacas perigosas que, segundo Claudio Gil, ao longo do tempo podem levar à morte. O ‘Teste dos Quatro Segundos’, como o estudo ficou conhecido, se mostrou eficaz para diagnosticar arritmias cardíacas não identificadas em outros exames cardiológicos, além de ter apontado a surpreendente característica cardíaca de atletas de certas modalidades esportivas.

A avaliação é feita numa bicicleta ergométrica, com o atleta conectado a um eletrocardiógrafo. O teste dura 12 segundos. No instante zero, o atleta respira fundo e prende a respiração, para alcançar a mais baixa pulsação. Depois de quatro segundos, pedala em velocidade máxima durante outros quatro segundos. Por fim, pára mais quatro segundos e, em seguida, solta o ar. Quanto maior a aceleração da freqüência cardíaca nesse exercício curto, mais potente será o coração.

“Constatamos que uma jogadora de vôlei de praia, medalhista em Olimpíadas, sobe a pulsação de 60 para 120 em apenas quatro segundos. Um maratonista ou um nadador de longa distância aumenta em média só 30% a pulsação. Só as modalidades do tipo pára-e-vai aumentam de 50% a 100%. Já as pessoas muito idosas ou doentes aumentam de 5% a 10% da freqüência”, diz Claudio Gil, que em setembro dará uma conferência sobre o estudo no Simpósio de Ergometria do Congresso Internacional de Cardiologia, em Goiânia.

PARA CRIANÇAS – O médico explicou que a pesquisa não pôde especificar se esses atletas desenvolveram essa potência cardíaca com a prática dessas modalidades esportivas ou se destacaram por já possuírem essa tendência genética.

“Não podemos dizer se uma campeã tem essa arrancada cardíaca porque ela joga vôlei de praia há anos ou se ela é medalhista olímpica porque nasceu com esse coração. Mas talvez o teste sirva para ajudar a seleção de atletas para determinadas modalidades. Outra revelação do teste é que muitas das crianças com essa característica tiveram asma ou alergias. Sabemos que 30% de uma delegação olímpica têm história de asma. Na natação, há uma maioria dos casos. É curioso. Muitos atletas buscaram o esporte porque tinham asma e alguns se destacaram devido a essa característica cardíaca.”

Mestrando em Educação Física da Universidade Gama Filho, no Rio, Marcos Bezerra de Almeida está fazendo uma tese sobre até que ponto o teste ajudará as crianças na escolha do esporte ideal para suas características fisiológicas. “Uma criança que não tem uma arrancada cardíaca veloz talvez tenha menos chances de se destacar como judoca, mas pode ser um excelente nadador de longa distância, um remador, um triatleta”, diz ele. O teste se mostrou eficaz para identificar arritmias cardíacas não diagnosticadas em exames comuns. Claudio Gil diz que as manobras cardiorrespiratórias do teste desencadeiam arritmias em pessoas já propensas, o que funcionaria como um meio útil de diagnóstico. Em 1.600 avaliados, de 10% a 15% tiveram arritmias durante o teste. Alguns já se queixavam de palpitações jamais registradas em exames.

“Atendi a uma paciente que passou mal certa vez e não sabia o que ocorrera. Quando fez o teste, teve uma arritmia. O teste mostra que essas palpitações indicam um desequilíbrio do sistema nervoso autônomo, a cujos estímulos o coração responde o tempo todo, até no ato de respirar. Técnicos de futebol costumam explicar: ‘Puxa, eles correram 10 quilômetros nas Paineiras e estão sem ritmo de jogo.’ Não é bem assim. É que o pára-e-vai de um jogo de futebol é cansativo”, explica Claudio Gil, afirmando que o jogador que não tem uma boa arrancada cardíaca pode correr duas horas seguidas, mas não agüenta meia hora de jogo.

“Isso não significa que o corredor não tenha um coração excelente, protegido contra doenças coronarianas. É apenas uma característica diferente”, conclui.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.08.2001
Domingo