Cultas e inteligentes, várias mulheres revelam ao público o seu amor pelas panelas. “Cozinhar é uma opção política”, diz Marilena Chauí
por MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo
A filósofa Marilena Chauí, professora da Universidade de São Paulo (USP) e uma das intelectuais de ponta da geração dos anos 60, é uma mulher de coragem. Depois de publicar tese em que discute os postulados do filósofo Baruch Espinosa, resolveu lançar, em parceria com a mãe, Laura, o livro Professoras na Cozinha (Editora Senac), sobre a arte de cozinhar, atividade que ainda envergonha muitas mulheres independentes. Marilena conta que riu da inversão de valores de suas leitoras mais jovens. Elas consideraram a publicação a mais nova ousadia de uma histórica ativista política.
“É engraçado como a cozinha se tornou um lugar no qual a mulher não gosta de aparecer. Mas eu cozinho desde os 9 anos, fazendo maioneses e frangos assados. Para a minha geração, a dos anos 60, cozinhar era uma opção política para integrar a vida profissional com a vida doméstica. Foi uma geração que, no mundo inteiro, buscou a realização mais completa possível do ser humano, sem divisões sociais ou emocionais entre homens e mulheres. Portanto, cozinhar não é uma atividade repentina, nem incompatível com os afazeres intelectuais. É uma opção política.”
Marilena, de 59 anos, comenta que as amigas intelectuais, entre elas Gilda de Mello e Souza, Walnice Nogueira Galvão e Maria Vitória Benevides, são exímias cozinheiras e mães dedicadas, mas nem por isso abdicaram da produção intelectual ou da arte de escrever.
“O livro é dedicado aos homens e às mulheres, especialmente aos que tentam bloquear essa cisão entre espaços femininos e masculinos. Os homens de minha geração cozinham e cuidam dos filhos. É um comportamento de exceção na sociedade brasileira, mas não é assim no resto do mundo”, diz.
Militante política e conhecida pela atuação no movimento de resistência à ditadura chilena (ela é sobrinha do presidente chileno Salvador Allende, morto em 1973), a escritora Isabel Allende, 59, sucesso mundial com o romance A Casa dos Espíritos, é outra representante da geração feminista dos anos 60 que também se rendeu aos apelos da cozinha. Ao lançar o livro de receitas Afrodite (traduzido no Brasil pela Editora Bertrand), ela ousou ainda mais: combinou cama e mesa num cardápio de pratos afrodisíacos. Para Isabel, os prazeres da mesa levam à cama e vice-versa. A autora diz que começou a pensar na relação entre comida e erotismo após os 50.
“Essas fraquezas da carne são as que mais me tentam no crepúsculo da vida, embora não tenham sido as que mais pratiquei”, diz a autora, que vive na Califórnia (EUA).
Já a escritora Ana Maria Machado, 60, escolheu um caminho erudito para chegar ao fogão. Ela é daquelas mulheres que negaram a cozinha para chegar ao mundo das letras. Poliglota, hoje busca receitas em diversos idiomas e aprendeu a fazer pudim de pão na Enciclopédia Britânica, consultando o verbete bread (pão, em inglês).
RAINHAS DO OVO FRITO –Mas nem todos as intelectuais se sentem à vontade na cozinha. Quando o assunto é culinária, a historiadora Isabel Lustosa, 45, confessa sua falta de aptidão para forno, fogão e até mesmo microondas. Mas não é preconceituosa. Ela admira quem sabe cozinhar.
“Nasci e passei a maior parte da vida no Ceará, mas não sei cozinhar nada. Minha mãe, Maria Dolores, também não tinha vocação para culinária. E quando cheguei ao Rio, em 1977, não sabia fazer arroz. Certa vez tentei preparar um doce de serigüela, seguindo a receita de uma amiga cearense e excelente cozinheira. Não deu certo, ficou duro e foi um fracasso”, conta Isabel, que, apesar do insucesso na cozinha, conhece vários intelectuais que entendem do assunto.
A escritora e historiadora Adriana Falcão, de 41 anos, é outra negação na cozinha, embora seja absolvida por um prato que sempre resulta em aplausos gerais, especialmente de seus filhos: o ovo frito.
“Não é por discriminação à cozinha. Sempre tentei cozinhar, mas sou desastrada. Derramo o óleo, quebro as coisas e ainda me queimo. Mas sou a rainha do ovo frito. O segredo é tampar a frigideira durante a fritura. É imbatível”, revela.