O pudim de pão tradicional da Áustria, primeira obra culinária da escritora Ana Maria Machado, aos 18, foi considerado por seu pai um trabalho verdadeiramente artístico, o melhor que já havia experimentado na vida. O sucesso do pudim foi o final feliz de um embate ideológico entre Ana Maria, que considerava a cozinha um lugar menor para uma mulher que se decidiu pela vida intelectual, e uma de suas tias, convicta de que o lugar da mulher era justamente a cozinha.
“Filha mais velha de nove irmãos que viajaram para o Espírito Santo de férias, fiquei aqui no verão com meu pai para fazer vestibular. Um dia, o padeiro deixou pão demais na nossa porta e, apesar de todo mundo conhecer minha opção intelectual, pedi a essa tia uma receita de pudim para aproveitar o pão. Ela teve o atrevimento de me dizer: ‘Vire-se, você não é uma intelectual que sabe tudo?’ ” , lembra.
A escritora ficou tão irritada com a petulância da tia que decidiu humilhá-la buscando uma receita tradicional, em inglês, na Enciclopédia Britânica. E, só de pirraça, enviou à tia uma versão individual da ‘obra de arte’ para que ela experimentasse.
“O sucesso do pudim me fez ver que eu teria condições de criar o que eu quisesse na cozinha. Foi assim que busquei receitas em várias línguas, de diversas culturas”, conta Ana Maria, que não pensa em lançar um livro de receitas porque ainda tem dezenas de idéias de livros de ficção à espera de realização.
Marilena Chauí também não pensava em escrever sobre culinária, mas de tanto atender às solicitações dos filhos, que foram morar sozinhos e não tinham habilidade na cozinha, decidiu fazer uma apostila para eles, com valiosas colaborações de vovó Laura. O sucesso da apostila foi tão grande que, tal como os panfletos revolucionários dos anos 60, passou a circular em dezenas de cópias entre amigos dos filhos e conhecidos.
“As apostilas foram se espalhando entre os alunos da USP, até que um grupo sugeriu que eu lançasse um livro. Eu gostei porque já queria fazer algo com minha mãe. E um livro de receitas trata de vivências femininas, como nutrir e alimentar, embora não sejam exclusivamente femininas”, afirma Marilena.
Para uma escritora de uma geração anterior, como Rachel de Queiroz, 90, as mulheres nada mais estão fazendo do que recuperar sua verdadeira identidade de rainhas da cozinha. “As mulheres saíram da cozinha para lutar por igualdade de direitos com os homens, mas, como venceram a batalha, já podem se dar ao luxo de voltar a cozinhar”, afirma Rachel, que é autora de romances e livros de receitas.
Para ela, a literatura é uma arte e a culinária é outra. ”Prefiro a arte de cozinhar. A literatura é um trabalho, um meio pelo qual sobrevivo. Já a cozinha é a diversão, a alegria de viver “, confessa a escritora, por telefone, de sua fazenda em Quixadá, no Ceará.
Rachel diz que não gosta de pratos sofisticados, mas do trivial saboroso, de carnes assadas, ensopadinhos ou galinhas recheadas ao forno. “Aqui no nordeste chamamos de galinha cheia. Abre-se a galinha e recheia-se o interior com os miúdos, ovos e temperos variados. Costura-se com agulha e linha e leva-se ao forno. Essa é a minha especialidade. E é aqui, na cozinha da fazenda, a dois mil e quinhentos quilômetros do Rio, que sou feliz”, comenta.