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NOVAS TECNOLOGIAS
Internet entra na onda da democratização

Próximos anos serão marcados pela entrada de internautas das classes C e D, que vão mudar o perfil da Rede com suas necessidades diferenciadas

por BRUNA CABRAL
bruna@jc.com.br

A Internet brasileira está prestes a ser invadida. Mas não há motivos para pânico – hackers, vírus ou outras chateações virtuais não têm nada a ver com isso. Trata-se de uma invasão ‘do bem’: uma nova onda de internautas ou, como está sendo chamada, a Segunda Onda da Internet no Brasil. De acordo com especialistas da área, deverão aportar no ciberespaço 30 milhões a 35 milhões de novos usuários nos próximos seis anos.

Isso significa que o número de pessoas com acesso à Internet no País, atualmente estimado em 11 milhões, crescerá pelo menos 200% no período. Mas há uma peculiaridade na expansão: grande parte dos marinheiros de primeira viagem deverão ser das classes C e D, que hoje representam apenas 20% dos brasileiros plugados. “Eles pegarão carona na infra-estrutura de navegação montada por escolas e órgãos públicos, padarias e pequenas empresas para chegar à Rede”, prevê a CIO do portal Brasil.com.br, Wilma Bolsoni.

Os primeiros passos estão sendo dados tanto pelas esferas pública e privada, quanto por Organizações Não-Governamentais (ONGs). Até 2002, o Governo Federal pretende instalar pontos de acesso em todos os órgãos públicos e nas localidades com mais de 600 habitantes, além de disponibilizar infra-estrutura de acesso em todas as escolas públicas do País.

Parece blablablá? O secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Alexandre Santana, garante que não. Ele afirma que os projetos caminham a passos largos. “Até já abrimos licitação para equipar as escolas.” Quanto aos pontos de acesso públicos, será iniciado em breve um projeto piloto em oito capitais, incluindo Recife. “Os quiosques, 100 ao todo, serão montados em parceria com Microsoft, HP e Embratel”, afirma. Ainda não se sabe onde.

O Governo Estadual também tem como meta conectar à Web as mil escolas públicas pernambucanas de educação básica até o final de 2002. “Usaremos a Rede PE Digital, que está sendo montada pela Telemar a partir de fibra ótica e rádio comunicação para garantir uma conexão de 64 Kbps”, afirma o secretário Estadual de Ciência e Tecnologia, Cláudio Marinho. “Esse é um segundo ciclo da Web: o de popularização. O mesmo aconteceu com os celulares, depois da chegada dos pré-pagos.”

Mas uma boa parte desses ‘novatos’ acessará a Web de casa. Isso, claro, se projetos como o do PC Popular, também do Governo Federal, saírem da gaveta. A iniciativa prevê o financiamento em até oito anos de PCs básicos para acesso à Web. O valor? A princípio os micros foram orçados em R$ 600. Agora o preço subiu para R$ 1 mil, devido à alta do dólar.

Outra proposta importante é a tarifação única para acesso à Rede, em estudo pela Anatel, a Agência Nacional de Telecomunições. “Os internautas poderiam acessar a qualquer hora, sem se preocupar com variações do custo das ligações”, afirma o representante dos usuários do Comitê Gestor da Internet, Raphael Mandarino. “Já as telefônicas garantiriam uma Rede mais estável, sem picos.”

A lentidão do Governo Federal nem de longe lembra a atuação das ONGs. A que tem maior visibilidade é o Comitê pela Democratização da Internet (CDI), que mantém 336 escolas de Informática em 19 Estados brasileiros. “O País já acordou para a importância de fazer com que a globalização chegue às favelas e esse é um processo irreversível”, afirma o presidente do CDI, Rodrigo Baggio.

Mas ele prefere não apostar em datas. “Trazer 35 milhões ou 40 milhões de brasileiros para a Web depende da ação de várias forças”, afirma. Resta saber se todos estarão dispostos a colaborar. “Esses números são uma meta. Só depende da sociedade”, reforça o consultor de Internet e diretor da PricewaterhouseCoopers, Marcus Anatocles.

Pode até haver controvérsias quanto ao tempo, mas a certeza de que a Segunda Onda está a caminho é inabalável para os especialistas. E eles garantem: depois que ela passar, a Web nunca mais será a mesma. “Esse público chegará com demandas bem específicas”, afirma Wilma Bolsoni. Quais? Lazer, educação e umas comprinhas de vez em quando. Mas nada de supérfluos, e sim bens básicos. “O e-commerce terá que ser revisto. Não dá para pedir número de cartão de crédito às classes C e D”, afirma.

As mudanças no perfil dos internautas brasileiros não ficarão restritas à estratificação social. “Primeiro a Web ficará mais jovem. Depois virão mais mulheres e idosos e ela terá, enfim, a cara do País”, afirma o analista do Ibope, Alexandre Magalhães.

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Jornal do Commercio
Recife - 22.08.2001
Quarta-feira