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Julgar e condenar
por CELSO RODRIGUES
PIEDADE – A esta altura, é julgar e condenar. Pois hoje o passado aqui terá vez. Apenas esperar. Carlinhos Oliveira, cronista sempre saudoso em meio aos meus melhores sentimentos, escreveu e eu logo li que ele “aprendeu com Jean-Paul Sartre que o importante na vida é tentar compreender.” E a seguir o dito famoso Carlinhos, legenda dos jornais cariocas, concluiu: “Agora estou triste, porque sou forçado a me reconhecer incapaz de fazer inimigos. É claro que muita gente me detesta; mas eu não detesto ninguém, A recíproca não é verdadeira...” Então, vamos ao essencial: lembrar, por exemplo, a inauguração do “Varanda”, com José Rozenblit. Festa bonita, a do restaurante do Sport. A elite rubro-negra lá, mostrando que o Sport era aquilo: um dos retratos do Recife. Depois, Amadeu Dias, honrando a tradição do Restaurante Leite, tomou conta de tudo, da cozinha e do bar. Tempo de conversar e beber com visitantes ilustres. Conversei e bebi longamente com Jorge Amado, João Saldanha, figuras nacionais, entre outros e eles me diziam: “Que recanto aconchegante, que Old Parr legítimo, que gostoso Châteauneuf du Pape.” E, semanalmente, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Maria Betânia, Gal Costa, Caetano Velozo, Chico Buarque, Isaurinha Garcia, Elizete Cardoso, Sílvio Caldas, Beth Carvalho. Carnavais sensacionais, manhãs de sol sem preconceitos, livres, e mulatas mostrando como vieram ao mundo. Bonitas e excitantes. Certa vez, uma delas rasgou a fantasia e gritou, completamente nua: “Sou virgem e pura como o Sport! Me olhem.”
Ao lado da sede, o belíssimo mural de Francisco Brennand, prestigiando o Parque Aquático. E eu a perguntar-lhe: “Que história é essa, Brennand?” E ele esclareceu de uma vez por todas: “Uma suruba aquática.” Verdade. Outra admirável obra de arte do alvirrubro Lula Cardozo Ayres, no salão do “Varanda”, conquista de Augusto Reynaldo, amigo do consagrado pintor.
Os nossos tradicionais rivais crescendo rapidamente. O Náutico, legítima síntese da aristocracia canavieira, forte no futebol e também nos esportes amadores; o clã Maciel doando terreno e conseguindo do governo estadual, via Bandepe, recursos para a construção do “Mundão do Arruda.” E o Sport, só fiel ao seu próprio destino: maior, mesmo, empurrado pela crença de sua gente, ganhando ou perdendo títulos. Doze anos sem a glória de um campeonato. Mas deu a volta por cima, reagiu, e consagrou-se em 1975, sobre o Náutico. Uma festa explosivamente recifense, tal qual o frevo quente na Pracinha a mexer com o corpo do povo e a alma da cidade. Administrações responsáveis, nas quais o que valia era o otimismo leonino que construiu uma cidade dentro do Recife. Jogadores daqui e de fora (os argentinos Navamuel e Magri) pagos religiosamente e igualmente os funcionários dentro desse esquema econômico e dessa política saudável. A colônia portuguesa apoiando, trabalhando e contribuindo generosamente para os cofres da Ilha do Retiro. Sport monumental, atravessou formidáveis crises internas, sem dúvida, mas Aldemar da Costa Carvalho, presidente e político, jamais fez do clube um ninho eleitoral. Nem ele, nem Jarbas Guimarães, nem Sílvio Pessoa. Deputado federal, com o apoio da torcida, foi José Moura. Não me consta, no entanto, qualquer desvio do administrador campeão na direção do campo do aproveitamento eleitoral e pessoal. De alguns anos pra cá, interesses de grupos políticos e partidários desviaram o Sport dos seus verdadeiros caminhos. Substituíram a verdade pela farsa e pela demagogia, como se faz na condenável prática eleitoreira. Eliminaram rubro-negros de origem, hostilizaram os irmãos portugueses, prometeram e continuam prometendo investimentos norte-americanos. (Não é que os gringos vão deixar, só por amor aos olhos dos farsantes do Sport atual, de reconstruir o que o terrorismo destruiu para salvar o Soport de um Nordeste distante, enganados?) Algum delegado da CIA nesses investimentos? Os débitos são vultosos. E o descrédito é prioritário dentro e fora do clube. Não é de se projetar apenas o não pagamento dos salários. Quase cem anos de abnegação pelo desenvolvimento cultural, social e esportivo fizeram do Sport um legítimo patrimônio de Pernambuco. Então, é de se lamentar, com lágrimas nos olhos, o descaso em termos da conservação de tão rico patrimônio. Antes do Excelentíssimo Senhor Deputado Luciano Bivar, o Sport vinha crescendo e abrindo esperanças de maiores espaços em nível nacional: quer material, quer moral. Renunciou o patrão rico, a exemplo do que fez em Jaboatão do Guararapes. E deixou um imenso rosário de dívidas. Fernando Pessoa não somou, e assim não tem condição de dirigir nem clube de botão, apesar do infernal artilheiro Fernando Samico...
Disse aqui, neste espaço, faz mais de dois anos, que Bivar não honraria a política de desenvolvimento do Sport. Apenas promessas. Me insultou, falou – coitado! – sobre meus uísques (como ele é curto de leitura, repito aqui o que declarou o poetinha Vinícius de Moraes: “O melhor amigo do homem é o uísque, uma espécie de cachorro engarrafado.” Eles é que engarrafaram o Sport com a desunião, usando até um “gás” especial, veneno puro... Outros áulicos tomaram os rumos da fuga, como frutas apodrecidas.
Me faz inquieto a tormenta que desabou sobre o Sport; e com saudades de um Sport valente e imbatível, digo, queridos amigos, sem receio de quaisquer represálias: os que renunciaram – Luciano Bivar e Homero Lacerda – e o porta-bandeira Arsênio Meira (não renunciante) são os principais responsáveis pela vergonha que de luto cobre hoje uma bandeira tão bela e tão presente na alma pernambucana. Faz quase um século. Tornou-se hoje símbolo do neoliberalismo que, lentamente, também arruina este País. Não seria um novo e glorioso gol a salvação do Sport? Meditemos. Não será difícil entender a razão deste protesto: acredito que daqui a quatro anos, através da renovação administrativa, renúncia do atual presidente e do inoperante Conselho Deliberativo, talvez assim o Sport volte às suas verdadeiras origens. Muito tempo para chorar, sem ternurar a alegria. É que o povo deste pobre País agora só aprendeu a sofrer e a derramar lágrimas.
Celso Robrigues é jornalista – celso87@globo.com
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