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Trogloditas contra o terror?
por JURACY ANDRADE
Seria de morrer de rir, se não fosse trágico (de morrer de chorar): os Estados Unidos têm agora uma Doutrina Bush. Já existe a Doutrina Monroe, “A América para os americanos”. Só que América aí não é sinônimo de EUA, como eles entendem, trata-se das Américas. Traduzindo, seria América do Sul, Central, México, toda essa escumalha, para os americanos, isto é, os estadunidenses, como se dizia no tempo da 2ª Guerra Mundial (talvez eles livrem a cara do Canadá, pois os canadenses também são branquelos). No Rio, seria “A nega é minha, ninguém tasca, eu vi primeiro” (com perdão dos cariocas e das meninas dos povos morenos). Com base nessa doutrina, os EUA tomaram na marra a metade do México, dominaram Cuba e outros países de raça ‘inferior’ sempre que quiseram (menos depois de Fidel), distribuíram golpes sangrentos por toda a nuestra Latinoamerica sempre que assim exigiram a segurança dos WASPs e as razões de Estado lá de riba; promoveram e sustentaram ditadores ferozes que nem Somoza, Trujillo, Fulgencio Batista, Médici, Pinochet, os inefáveis generais de constelação argentina. Quanto a ditadores que tinham projetos de interesse nacional, como Getúlio e Perón, eles logo invocavam a democracia para justificar mais um golpe (democracia é coisa de branco...).
Tem também uma doutrina, não me lembro se de Woodrow Wilson ou de Theodore Roosevelt, que é a do Big Stick (grande porrete), que serve para enquadrar os povos morenos que não aceitarem a doutrina Monroe. E agora somos apresentados à Doutrina Bush. O filho de Bush 1º não sabe nem o que é doutrina, mas é para isso que servem assessores e consultores. Aliás, o Caubói Aloprado é uma piada ambulante. Até aí, nada de anormal (leia-se a história dos EUA). Ele foi eleito (aliás, parece que não foi) para ganhar o campeonato de calhordice, reacionarismo, complexo de superioridade, que caracterizam o Partido Republicano de lá (o Great Old Party, GOP, como é chamado carinhosamente pelos aproveitadores e pelos babacas de lá). Ele nomeou para os cargos mais importantes de seu governo os trogloditas que estavam desempregados desde o fim do reinado de seu pai. Para conduzir a política antidrogas nomeou um dinossauro que quer penalizar ainda mais os usuários de drogas; certamente vê os fabricantes e traficantes como empresários.
Ficou tão cansado desse esforço que logo correu de férias para seu ranchinho no Texas. Foi salvo de pelo menos quatro anos de desmoralização pela tragédia de 11 de setembro. Recente estudo encomendado pelos maiores jornais americanos concluiu que o homem não ganhou as eleições. Mas a Suprema Corte, de tantos méritos na questão dos direitos civis, decretou o fim das recontagens. Aliás, a Suprema Corte também sepultou as apurações sobre o assassinato de John Kennedy. Tinha gente graúda envolvida no complô. Foi Lee Oswald sozinho o responsável e pronto; ponto.
Depois de a população americana reconhecê-lo como presidente, dado o seu heroísmo na guerra contra o miserável Afeganistão, ele agora sai com sua doutrinazinha particular: os terroristas (tirante ele) ameaçam a civilização; todos os países têm que combater o terrorismo. Tudo bem. Mas ele decretou que todo país com assento na ONU tem que obedecer ao governo americano, apoiando sua luta (terrorista) antiterror. Desaprovar e combater o terrorismo, certo; mas nada de cair de quatro diante de botas que já chutaram e espezinharam tanto nuestra Latinoamerica. Os EUA não podem legislar para o resto do mundo.
Juracy Andrade é jornalista (juracy@jc.com.br)
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