A exposição [ABRE-ENTREV]Brennand no Acerto com o Mundo,[/ABRE-ENTREV] realizada no espaço denominado Lugar do Desenho, da Fundação Júlio Resende, em Valbom, Gondomar (cercanias do Porto), foi inaugurada no último dia 13 de outubro, com a presença do artista plástico pernambucano Francisco Brennand. A mostra fica aberta até 2 de dezembro. São 52 desenhos e 25 esculturas, algumas zoomórficas, outras de origem matricial – A Mãe-Natura – dispostas contra o pano de fundo de macro-fotografias que procuram trazer o espectador para dentro do tempo gliptotéico do escultor, na Várzea do Capibaribe, em Pernambuco. O crítico português de arte Manoel Rodrigues Vaz e o jornalista Marco-Aurélio de Alcântara entrevistaram Brennand, no Porto, no dia da abertura da mostra. Os melhores trechos da conversa estão publicados abaixo.
JORNAL DO COMMERCIO – Como surgiu a idéia da exposição em Portugal?
FRANCISCO BRENNAND – Devo exclusivamente ao mestre Júlio Resende o convite que foi feito ano passado para expor na sua Fundação, cujo nome Lugar do Desenho, já demonstra, da parte desse pintor, alta sabedoria e engenhosidade no tratar das artes plásticas.
JC – Qual o significado desta exposição aqui e agora, e quais os temas principais dela?
FB - Ninguém pode ignorar que, neste ano de 2001, a cidade do Porto é considerada a Capital Européia da Cultura. Além da exposição realizada em Londres (1989), participei da II Bienal Internacional de Óbidos, em Portugal (1989); em 1990, Bienal de Veneza. Em 1993, exposição intitulada Esculturas, Pinturas e Desenhos, em Berlim, no Staatilche Kunsthalle; sucessivas exposições nacionais: São Paulo em 1998, Brasília 1999, Rio de Janeiro e Manaus no ano de 2000. Compreenda-se então o significado, para mim, dessa exposição em Portugal, na abertura do terceiro milênio e eu a falar numa linguagem que é aquela do futuro do homem, ou seja, do seu coração antigo.
JC – Quais os principais temas dessa mostra?
FB – Uma série de figuras grotescas, entre outras a cabeça de um eterno camponês que lembra uma pintura de Bruegel, o Velho. Uma Suzana que é ao mesmo tempo um dos juÍzes que a cobiçava. Lembrando A Casa de Bonecas, de lbsen, risquei uma série de desenhos cujo título é A Casa das Pernas. Há também um auto-Retrato de costas e um outro como Netuno. Algumas mulheres-peixes, uma Santa Lúcia degolada, figuras errantes, Um espantalho, Um abutre, o deus Pã; a jovem rainha Abrise, o nascimento de Vênus.As esculturas não devem diferir muito desses temas. Apenas acrescentaria alguns mitos gregos e um pouco da história que assinala mulheres desafortunadas: Halia, Antígona, Lara, Inês de Castro, Joana D’Arc, Maria Antonieta. Uma grande escultura Lêda e o Cisne faz adivinhar um conjunto de ovos. Uma mulher grávida com a face encoberta por uma máscara azul é batizada de Matriz.
JC – Até que ponto o erotismo continua a pautar a sua obra?
FB - Tenho74 anos e me defino como feudal, supersticioso e pornográfico. E acrescento: quando não existe mais superstições catalogadas, eu as invento. Sempre estou tentando relacionar as coisas do corpo, como se fossem um fio que não se parte, mas um fio condutor que leva sempre a um resultado desastroso, uma predestinação.O erotismo é a única arma ou desafio que o homem utiliza para reagir aos desígnios da ‘Mãe Natureza’. Em essência, todo erotismo é transgressor. Mas acontece que é o único alimento que pode nutrir os nossos combalidos impulsos reprodutivos. Estou com Bataille quando diz: “O fundamento do erotismo é a mancha”. Daí porque não concordo com Octavio Paz, quando este define o erotismo como ‘poética corporal’. Eu diria que no fundo não é mais do que uma servidão diante de instintos extraviados que não encontram jamais nem o seu verdadeiro nome nem qualquer possibilidade de repouso. Tolice e danação é o nosso destino.
JC – Em que medida os negócios de sua família influenciaram a sua escolha nos materiais com que trabalha?
FB - Em fevereiro de 1949, na cidade de Paris, vi expostas as primeiras cerâmicas de Picasso. Até esse momento eu me recusava como pintor a considerar esta técnica, digna de atenção. A descoberta dos trabalhos de Miró, de Leger, e, sobretudo, a certeza de que Paul Gauguin - o maior dos mestres da pintura moderna - também havia incursionado pelo escultura cerâmica, comprovando a sua ancestralidade peruana, foi o tiro de misericórdia nos meus preconceitos. Ao voltar da França, cheguei com a minha profissão de pintor perfeitamente delineada, mas a relutância contra a cerâmica caíra por terra. Segundo os mais antigos mitos sumerianos, o homem foi feito de lama e sangue. Tomei consciência dessa carnificina e prossigo no meu novo e árduo ofício abençoado por Prometeu, que furtou o fogo para depositá-lo no coração do homem.
JC – Como artista, sente-se mais basileiro ou mais cidadão do mundo? até que ponto as origens européias determinaram as linhas de força da sua obra?
FB - Com o passar do tempo, interessa cada vez mais a condição humana. Não posso mesmo adivinhar o que seja um cidadão do mundo e muito menos integralmente ser um brasileiro, porque nasci neste País. Apenas acredito que originário deste canto do mundo, de uma magnitude territorial equivalente a um continente, sinto-me o senhor de todas as liberdades possíveis. Não há conhecimento que não seja atingido pelo enorme peso daquilo que se aprendeu. Mas Europa não é só civilização e cultura. Existe também a sua barbárie. Meu trabalho é sempre contaminado pelas linhas de força que vêm das formas primordiais e, é claro, a minha ancestralidade européia sinaliza nesta direção. Sou um empedernido cultor de arcaísmos.
JC – Que idéia tem sobre a arte que se faz atualmente em Portugal? E quanto ao que se faz no Brasil?
FB - Um breve histórico que nada tem a ver com atualidade, quer seja das artes portuguesas ou brasileiras, me situará, de alguma forma, nesta visão crítica que jamais será completa. No dia 21 de março de 1949, conheci na portaria do Hotel Montalembert em Paris, um senhor magro, grisalho, falando português (de Portugal). Tratava-se do pintor e escritor Almada Negreiros. Ele demonstrou ser culto e desembaraçado e, embora eu o desconhecesse (santa ignorância!), era um pintor dos mais importantes de sua terra, com uma vasta obra já realizada, incluindo pinturas a óleo, murais cerâmicos e gravuras, tendo feito, inclusive, diversas exposições em países europeus... Depois conheci também em Paris, Maria Helena Vieira da Silva e seu marido, o pintor Arpad Zhenes. Não precisa adiantar que considero Maria Helena Vieira da Silva, uma das grandes pintoras (ou pintores) do século XX. Quanto ao mestre Júlio Resende o conheci no meu ateliê, quando de suas viagens que empreendeu ao Brasil. Daí nasceu a nossa amizade. Igualmente a Júlio Pomar, também conhecido numa visita que ele fez à cidade do Recife. Falar da admiração que mantenho por esses dois mestres, não caberia nesta entrevista.
Do grande escultor João Cutileiro, tenho informações colhidas no livro 25 Portugueses, de Luís Osório: Trabalha 16 horas por dia e tem dificuldades em dormir (já temos um ponto em comum). Mora em Évora. Viveu no Afeganistão e na Inglaterra. Diz Luís Osório que ele trabalha a pedra. Eu modelo o barro e faço pintura, entretanto, sei que ele é um dos mais conhecidos escultores portugueses. Gostaria de encontrá-lo. E quanto ao que se está a fazer no Brasil, moro longe e viajo pouco.
JC – Quais são os projetos próximos futuros?
FB - As peculiaridades da Oficina Cerâmica Francisco Brennand, como realização maior do meu trabalho, excluem, em parte, a idéia das exposições... Em todo caso, tenho de assinalar o convite de Isaltino Afonso de Morais, Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, para colaborar no projeto, de um grande parque de esculturas que será o segundo maior parque de esculturas da Europa, depois do Vigeland Park, em Oslo. Estariam empenhados 50artistas plásticos portugueses, homenageando 50 poetas de Luís de Camões a Fernando Pessoa. Evidentemente estou alinhado a onze artistas do além-mar que também falam a língua portuguesa e têm os seus poetas a reverenciar.