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DISCO
Paradoxx relança CDs pouco conhecidos de Tim Maia

Os trabalhos são visualmente descuidados, mas a personalidade vocal do cantor transforma tudo que interpreta em ouro, mesmo bossa nova, que não era sua praia

JOSÉ TELES

A Paradoxx é uma gravadora que faz jus ao nome. Sem nenhum grande astro no elenco, paradoxalmente ela solta sete CDs de Tim Maia de uma só tacada. Como Tim Maia também foi um artista paradoxal fica tudo em casa. Depois de encrencar-se com as chamadas ‘majors’, as multinacionais do disco, o cantor criou o selo Vitória Régia e desafiou a lei de procura e oferta. Passou a lançar disco atrás de disco, com mínimos intervalos de tempo, de capas lamentáveis, inclusive com erros de revisão no título da músicas (Uselles Landscape em vez de Useless Landscape, versão de Inútil paisagem, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira).

Esse desleixo foi responsável pelo descaso com que se ignorou um álbum como Sorriso de Criança, que traz Sozinho, de Peninha, que virou um megasucesso com Caetano Veloso e Acenda o farol, um quase sucesso com o próprio Tim Maia.

Cantor de superlativos dotes vocais, mesmo com arranjos pouco inspirados, Tim Maia bota no bolso a maioria, aliás, todos os autoproclamados soulmen tupiniquins. Sem esforço, ele imprime soul em qualquer canção que interprete, e aí vai de Sou amigo do rei, composição pouco conhecida da dupla Lenine/Bráulio Tavares (que dá nome a um dos CDs desse pacote da Paradoxx), à singela Valsa de uma cidade (Ismael Neto/Antônio Maria).

Tim Maia possuía uma personalidade vocal tão forte que, mesmo quando parecia meter os pés pelas mãos na escolha do repertório, acabava acertando. Foi assim na época em que anunciou que gravaria bossa nova, sabendo-se que a música de um banquinho e um violão nunca foi exatamente a especialidade dele.

Tim Maia canta BN nos CDs Tim Interpreta Clássicos da Bossa Nova, Pro Meu Grande Amor, Tim Maia e Os Cariocas, Só Você, e Pra Sempre. E se prova mais joãogilbertiano do que quase todos os que cantam tentando emular o mestre baiano. Nanã, do maestro pernambucano Moacir Santos (em parceria com Mário Telles), recebeu uma de suas melhores interpretações (bem superior à de Wilson Simonal, por exemplo). Nanã está no CD Pro Meu Grande Amor, que deve ter a pior foto que alguém já ousou colocar na capa de um disco em toda a história da MPB. Uma apresentação horrorosa para um grande álbum.

Dono de um inglês impecável (aprendido em alguns anos residindo nos EUA, onde foi de ama-seca de asilo de idosos a vagabundo), Tim Maia gravou um disco inteiro no idioma de George Bush Filho. What a wonderful world, Oldies but goodies (Que maravilha de mundo, Antigas mas boazinhas). Deve ter-lhe batido nostalgia dos tempos em que convivia com Erasmo, Roberto, Arlênio, a turma da Tijuca, no Rio, nos primórdios do rock’n’roll, e Tim Maia viaja pelos hits do final dos anos 50 e inícios dos 60. Grandes interpretações para standards tais como What a wonderful world (aquela que todo mundo conhece com Louis Armstrong) e Since I don't have You (Desde que eu não tenho você).

É perdoar as capas e ir direto no som redondo e sem firulas inúteis de Tim Maia. Cinco dos sete CDs vêm com faixas interativas, com clipes, discografia, biografia, essas bossas que na época do lançamento original ainda eram novas.

Serviço

Relançamentos de CDs de Tim Maia pela Paradoxx. Títulos: What A Wonderful World Oldies But Goodies, Pro Meu Grande Amor, Amigo do Rei (com Os Cariocas), Só Você (Pra Ouvir e Dançar), Sorriso de Criança, Pra Sempre, Tim Maia Interpreta Clássicos da Bossa Nova. Preço médio: R$ 16

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Jornal do Commercio
Recife - 24.11.2001
Sábado