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SHOW
Gilberto Gil dedica PercPan ao ausente Naná Vasconcelos

O anfitrião foi um dos destaques da noite ao repassar sucessos com nova roupagem. O Tocá Rufar, de Portugal, foi o único grupo que seguiu à risca a ideologia do festival

por JOSÉ TELES

“Queria oferecer a ele todo nosso trabalho nesses três dias”. Foi assim que Gilberto Gil abriu a primeira noite do PercPan, quinta, na praça do Marco Zero, dedicando a Naná Vasconcelos o festival. A oitava edição do Panorama Percussivo Mundial teve como primeira atração o Maracatu Nação Pernambuco. Sua estilização de maracatus de baques solto, virado e caboclinho, uma receita que vem dando certo desde finais os anos 80, enche a vista, pela coreografia dos bailarinos e colorido dos trajes. É belo, porém um espetáculo para turista e exportação. Pode-se até alegar que o grupo esteja modernizando o maracatu, mas a introdução de um baixo elétrico no baque virado, em lugar de um avanço estético, soa como um embaraço sonoro.

O Tocá Rufar foi a única atração que levou ao pé da letra o objetivo do festival. Com oito integrantes, tocando tambores de formatos variados, os lusos não incursionam pelos caminhos da canção. Limitaram-se à percussão, e a um estranho instrumento de sopro, tocado pelo criador do grupo, Rui Júnior, celebrado músico lusitano. Seguiram tanto à risca, que se limitaram aos 30 minutos reservado para cada convidado.

Em seguida aos portugueses entrou o Boi Bumbá de Parintins, que veio com uma formação que misturava elementos dos dois bois rivais da festa da Amazônia. O Boi Bumbá na maioria do show assemelha-se a uma espécie de axé do povo da floresta. Assim como o Nação Pernambuco, é atração para inglês ver. As coreografias e os trajes emplumados dos bailarinos sumariamente vestidos lembravam o kitsch de filmes norte-americanos dos anos 50, com trilha da diva peruana Yma Sumac. A platéia manteve-se alheia ao badalado boi do Amazonas, até que o vocalista enveredou pelos sucessos nacionais do grupo, aí houve ensaio de dança na praça e mãozinhas levantadas no melhor estilo Recifolia.

Convidado para fazer com Gilberto Gil a ponte sonora entre uma e outra atração, Marcos Suzano mostrou-se demasiadamente tímido. Postou-se com seu pandeiro num canto do palco e não fez muito mais do que acompanhar o baiano. O incansável Gilberto Gil foi mesmo o melhor da noite. Se nas edições anteriores do PercPan ele entoava vinhetas preparando a platéia para o próximo show, ontem Gil esmerou-se em entreter o público, repassando diversas fases de sua carreira. Foi assim que ele brindou os pernambucanos com uma rara interpretação de duas canções de seus tempos de tropicalismo. Cantou Frevo rasgado e a anárquica Pega a voga cabeludo, ambas de seu disco de 1968 (aquele em que posa na capa com um fardão da Academia Brasileira de Letras).

O elétrico Carlinho Brown adentrou o palco com uma orquestra de tambores. Ele havia adiantado que mostraria uma nova técnica de tocar o surdo virado. Fez isso nos primeiros minutos de sua apresentação, enquanto entoava uma música, que alardeava ser inédita. Não demorou, o esfuziante Brown fez o que também havia prometido, em entrevista, dois dias antes. Tornou a platéia feliz, ao desfiar um rosário de suas composições mais conhecidas dos seus três discos solo, entre elas Hawaii you e Crendice. Já era uma da madrugada quando Gil voltou ao palco para um dueto com o conterrâneo. Cantaram um inusitado Happy birthday to you. O “happy birthday”, no caso, para o próprio Carlinhos Brown que acabava de completar 39 anos.

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Jornal do Commercio
Recife - 24.11.2001
Sábado