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PE-15 e progresso
Anunciam-se obras que
irão alargar e modernizar a PE-15, que corta grandes
cidades da Região Metropolitana do Recife. É um momento
adequado para algumas observações. A falta de previsão
e planejamento de longo prazo está entranhada em nossa
cultura. No caso da construção de estradas, essa falha
tem sido uma constante. Nos países mais organizados
política e administrativamente, as estradas não passam
por dentro de aglomerações urbanas e, quando essa
passagem se torna imprescindível, constroem-se túneis
ou elevados, com o objetivo de poupar o pedestre de uma
convivência forçada e perigosa com veículos. Aqui, a
tradicional imprevidência prefere o atalho da lombada;
geralmente autênticos quebra-molas, sem sinalização
preventiva e da mesma cor cinzenta da pavimentação.
Entre nós, o conceito de via expressa internacionalmente
estabelecido sofre estranhas manipulações. Ela é uma
corrida de obstáculos.
As explicações não convencem. Seria para proteger o
bem-estar, a própria vida, dos que são obrigados a
cruzar essas estradas em busca do outro lado das cidades.
Por que não se desapropriou uma razoável faixa de terra
em torno das estradas, como acontece na Europa, nos
Estados Unidos? Por que se prefere a lombada à
passarela? Aí entra outra distorção, que é a
apelidada de lombada eletrônica. Mais uma vez, a
imprevidência, a falta de cuidado com o que é público:
como se pode conter em 40 km/hora a velocidade dos
veículos em uma via que deveria ser expressa, para fazer
jus à finalidade para a qual foi construída? Como não
poderia deixar de ser numa cultura da vantagem, a tal
lombada eletrônica tornou-se o mais recente e rentável
caça-níqueis engendrado por nossa arcaica e voraz
burocracia.
Estas observações em nada contradizem as expectativas
de progresso e desenvolvimento das cidades de Paulista,
Abreu e Lima e Igarassu, com a triplicação da PE-15. Ao
contrário, se se observarem normas de planejamento e
real modernização, essas vantagens serão ainda
maiores. Além das pistas de rolamento, o projeto de
ampliação da velha Estrada de Paulista (que existe
desde os anos 50 e era pavimentada com paralelepípedos)
prevê a construção de quatro viadutos, oito pontes e
uma ciclovia. Além disso, o prefeito de Paulista,
Antônio Speck, vai encaminhar à Câmara Municipal
projetos de lei para mudanças urbanísticas. Segundo o
secretário de Planejamento, Jorge Carrero, a cidade
terá condições para receber novos empreendimentos,
não só com a ampliação das pistas da PE-15, mas com
investimentos em saneamento e reestruturação urbana.
A cidade de Olinda também poderá ganhar com a entrega
das obras da PE-15, prevista para setembro de 2002, se os
moradores das praias de Paulista utilizarem essa estrada
e a PE-21 para se locomover para o Recife e voltar para
casa; em vez de contribuírem para o engarrafamento das
já saturadas vias de Olinda usando-as para ir à capital
e voltar. As que mais vão ser beneficiadas, porém, são
as cidades servidas pela rodovia PE-15 ampliada.
Mais desenvolvimento, mais progresso, são bem-vindos,
mas voltamos a lembrar as velhas regras de urbanismo
consagradas nos países ricos. Já se pensa em mudar o
Plano Diretor de Paulista. Essa modificação só se
justifica se for para melhor. Ao que consta, o governo da
cidade consideraria rígida a atual legislação de uso e
ocupação do solo, e quer incentivar a instalação de
mais empresas e estabelecimentos comerciais no entorno da
rodovia. Por que não um pouco mais distante? Pretenderia
também aumentar o atual gabarito para construções na
orla marítima que vai do Janga a Maria Farinha. A
história da caótica e predatória ocupação e
exploração de nossas praias desaconselha isso.
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Jornal do Commercio
Recife - 24.11.2001
Sábado
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